O Rio Zaire ou Congo - também assim chamado - é uma massa de água, serpente gigantesca, que se estende por quatrocentos e trinta e sete quilómetro, drenando três milhões seiscentos e oitenta mil quilómetros quadrados, com uma vazão média diária de quarenta e um, mil e oitocentos metros cúbicos, engulindo na sua bacia hidrográfica, países como a R. D. Congo, República Centro Africana, Angola, R. Congo, Tanzânia, Camarões, Zâmbia, Burundi e Rwanda. Em território angolano, na zona compreendida entre Nóqui e o Soyo, a sua corrente atinge a velocidade impressionante de 25 a trinta nós, e lança-se no Oceano Atlântico, penetrando mais de cem quilómetros mar adentro inscrevendo nele a marca da iniquidade a que os homens o condenaram.
Este rio, maldito pela acção dos homens, tem sido testemunha e figurante de guerras de libertação, guerras civis, golpes de estado, guerras tribais e genocídios: Congo ex-belga, Angola, Burundi, Rwanda, são alguns dos palcos que ele banha. É grande a tentação de pensar que este rio foi "escolhido" como o vazadouro de todas as iniquidades que celebrizaram, tristemente, Utus, Tutsis e Ka, com a cumplicidade de todos os defensores dos Direitos Humanos. O Rio Zaire ou Congo, na sua bacia hidrográfica, junta alguns dos países mais ricos do mundo, potencialmente, Angola e a R.D. do Congo, e, concomitantemente, os mais pobres e deserdados, Rwanda e Burundi.
Este rio que durante dois anos foi hospedeiro imprevisível que nos acolheu, para o melhor e para o pior, deixou marcas que o tempo não conseguiu desvanecer.
Por altura da sua foz, na cidade do Soyo, antigo Santo António do Zaire, e sensível mente, a mais ou menos 5 graus a Sul do equador, este rio tropical, conjuga temperatura/humidade quase constante, de tal forma que, cacimbo e tempo seco, não deixam sobre os corpos diferenças muito perceptiveís.
As características da sua bacia hidrográfica, em território angolano são temíveis e temidas: a força da sua corrente, os depósitos de aluvião, os baixios, os afloramentos rochosos, os efeitos da sua corrente sobre as margens, planta e animais, a estreiteza do seu canal navegável, a fauna, crocodilos, hipopótamos, peixe-serra, gaviais, etc., tornam-no um rio propício a personagem de relatos reais e fictícios que lhe conferem uma fama, nem sempre merecida, mas temível onde se distinguem mal os contornos entre o real e o imaginário, o mágico, o feitiço, adiante falar-se-à da Pedra do Feitiço.
Com estes dados atafulhadosna cabeça, depois de leitura recente, e como que a comprovar a força anímica da sua realidade, a natureza da atmosfera fendeu, em todas direcções, e uma vez mais, a violência do dilúvio tropical, marca amiudada da estação do cacimbo, garantiu mais um dia de reclusão obrigatória no interior da camarata.
Inútil afrontar o dilúvio, salvo por razões extremíssimas, e por isso, mais recomendável se torna uma retirada intimista, quase introspectiva, sob a tirania de um pensamento errático, quase neguentrópico, que nos situa entre as margens da depressão e do aniquilamento, com que a força dos elementos naturais nos ameaçam.
Estes dias, à força de se repetirem, e determinam pausas forçadas, dão azo a que o pensamento e a reflexão que não estão sujeitos à servidão militar, assomem à boca da cena e façam das suas, i.e., nos conduzam a recônditos dos quais nos queremos afastados... isto porque importam episódios vividos positivos ou negativos, indesejáveis, frequentemente.
Felizmente, não havia retretes para limpar, chão para varrer, torre para trepar. Os vomitados, estavam drenados, os corpos lavados e enxutos, a biblioteca estava em fila de espera, e, até, as batatas para o almoço eram descascadas sob a telha de zinco que vibrava sob a força bátega e rangia à ordem do vento. O ambiente ruidoso produzido pelo dilúvio tropical e pela força da ventania não convidavam a grandes conversas exigindo um esforço inútil para pouca comunicação.
Depois das tarefas possíveis concluídas e encurtando a hora de almoço, um mergulho doce e apetecível na maca, trouxe o sono e sonho...
...Sob um dilúvio que parecia antecipar o fim do mundo, rio abaixo, açoitada, baloiçada, quase soçobrando na torrente violenta de águas castanhas, avivadas por fúria endemoninhada, cirandava uma piroga, tripulada por um corpo semi-nú, que parecia gritar, para se sobrepor ao ruído do vento e das águas em fúria. Perigosamente, aproximava-se daquele farol dantesco, cercado de rochedos afiados pela erosão das águas, aguçados como facas e mais adivinhados do que vistos... Não se percebia o que a mulher gritava, nem por adivinhação... Não parecia ser nada de bom e tornava-se pior, quase fatal, à medida que se aproximava das facas líticas que constituíam a aproximação daquele farol que chamavamos o "farol do inferno".
A aflição era tormentosa, porque um dia, para substituir a bilha de gás que alimentava o farol, sofremos um rasgão no bote de borracha e se não fosse pneumático, ternos-ía-mos acidentado de forma imprevisível.
A piroga continuava a sua descida, alucinada, tocada por ventos e águas maléficas, endemoninhando uma trajectória de contornos fatais... numa súbita acalmia, os gritos da mulher que soavam imperceptíveis, parecendo terríveis e angustiados, tornaram-se num apelo doce e irresistível:
- Vem Zoão! Venho só te buscar! Salta na água vem comigo, ya? Vem só Zoão!... Zzooãooo, vem já, ó uisa!
Aquela voz, reconhecida sob todas as tormentas e até no escuro, só podia ser de uma mulher, a única cuja voz marcara, corpo a corpo, um território inconfundível em que um e um "sumavam" um... de todos os pares que se fundiam na doce emulação do centauro, de cabeça extravasado no corpo de uma mulher..
- É, angê, ó uisa - murmúrio atabalhoado de chamamento e convite.
Surda aos chamamentos e convite, a piroga embateu, fragorosamente, nas rochas do Farol do Inferno. Tragédia, horror, danação, tudo se conjugou de forma sofrida, muito magoada, na visão de uma mulher que se arriscara e, por amor, desafiou um rio em fúria.
Não sobraram destroços da piroga. Não vogavam vestígios do corpo ou do pano. Os olhos- testemunhas liquifizeram-se. Na maca, o corpo convulso agitou-se, de forma breve mas violenta. O despertar amargo, crú, foi marcado pelo balbuciar precioso - de prece, claro - que tartamudeava... Lugolina, angê, ó uisa, tou te pedir!
Maldito sonho, esse rio só pode ter "feitiço"... ché! Até de noite, o sonho voltava e revoltava.
Presságio? Premonição? Morte simbólica? O que pode um primeiro-grumete saber destas coisas?
Está visto, que este rio não é boa rês, não é não! Com ele, mesmo em sonhos, todo o cuidado é pouco. Deviam rebaptizar este rio, chamar-lhe "gatuno, chimuno, ombandi, saiba-se lá mais quê", rio que adormece para roubar mulher é mau... rio que mata para virar lembrança não é bom. Rio que rouba mulher e mata é pior... muito cuidado, ya?
Lugolina, era a mulher que o rio colheu no sonho. Zaire ou Congo é o nome do rio odiado e amado, temido desde então... por esta sem-razão e por outras com razão que adiante sem contarão.
O sonho foi longo, momentoso e com ele foi-se o almoço e a vontade de jantar. Dormir, era tudo quanto se podia pedir, sob a inclemência duma tempestade filha do Cacimbo.
Por hoje, é tudo, sofrimento é bwé.... boa-noite - se for caso disso.
Este rio, maldito pela acção dos homens, tem sido testemunha e figurante de guerras de libertação, guerras civis, golpes de estado, guerras tribais e genocídios: Congo ex-belga, Angola, Burundi, Rwanda, são alguns dos palcos que ele banha. É grande a tentação de pensar que este rio foi "escolhido" como o vazadouro de todas as iniquidades que celebrizaram, tristemente, Utus, Tutsis e Ka, com a cumplicidade de todos os defensores dos Direitos Humanos. O Rio Zaire ou Congo, na sua bacia hidrográfica, junta alguns dos países mais ricos do mundo, potencialmente, Angola e a R.D. do Congo, e, concomitantemente, os mais pobres e deserdados, Rwanda e Burundi.
Este rio que durante dois anos foi hospedeiro imprevisível que nos acolheu, para o melhor e para o pior, deixou marcas que o tempo não conseguiu desvanecer.
Por altura da sua foz, na cidade do Soyo, antigo Santo António do Zaire, e sensível mente, a mais ou menos 5 graus a Sul do equador, este rio tropical, conjuga temperatura/humidade quase constante, de tal forma que, cacimbo e tempo seco, não deixam sobre os corpos diferenças muito perceptiveís.
As características da sua bacia hidrográfica, em território angolano são temíveis e temidas: a força da sua corrente, os depósitos de aluvião, os baixios, os afloramentos rochosos, os efeitos da sua corrente sobre as margens, planta e animais, a estreiteza do seu canal navegável, a fauna, crocodilos, hipopótamos, peixe-serra, gaviais, etc., tornam-no um rio propício a personagem de relatos reais e fictícios que lhe conferem uma fama, nem sempre merecida, mas temível onde se distinguem mal os contornos entre o real e o imaginário, o mágico, o feitiço, adiante falar-se-à da Pedra do Feitiço.
Com estes dados atafulhadosna cabeça, depois de leitura recente, e como que a comprovar a força anímica da sua realidade, a natureza da atmosfera fendeu, em todas direcções, e uma vez mais, a violência do dilúvio tropical, marca amiudada da estação do cacimbo, garantiu mais um dia de reclusão obrigatória no interior da camarata.
Inútil afrontar o dilúvio, salvo por razões extremíssimas, e por isso, mais recomendável se torna uma retirada intimista, quase introspectiva, sob a tirania de um pensamento errático, quase neguentrópico, que nos situa entre as margens da depressão e do aniquilamento, com que a força dos elementos naturais nos ameaçam.
Estes dias, à força de se repetirem, e determinam pausas forçadas, dão azo a que o pensamento e a reflexão que não estão sujeitos à servidão militar, assomem à boca da cena e façam das suas, i.e., nos conduzam a recônditos dos quais nos queremos afastados... isto porque importam episódios vividos positivos ou negativos, indesejáveis, frequentemente.
Felizmente, não havia retretes para limpar, chão para varrer, torre para trepar. Os vomitados, estavam drenados, os corpos lavados e enxutos, a biblioteca estava em fila de espera, e, até, as batatas para o almoço eram descascadas sob a telha de zinco que vibrava sob a força bátega e rangia à ordem do vento. O ambiente ruidoso produzido pelo dilúvio tropical e pela força da ventania não convidavam a grandes conversas exigindo um esforço inútil para pouca comunicação.
Depois das tarefas possíveis concluídas e encurtando a hora de almoço, um mergulho doce e apetecível na maca, trouxe o sono e sonho...
...Sob um dilúvio que parecia antecipar o fim do mundo, rio abaixo, açoitada, baloiçada, quase soçobrando na torrente violenta de águas castanhas, avivadas por fúria endemoninhada, cirandava uma piroga, tripulada por um corpo semi-nú, que parecia gritar, para se sobrepor ao ruído do vento e das águas em fúria. Perigosamente, aproximava-se daquele farol dantesco, cercado de rochedos afiados pela erosão das águas, aguçados como facas e mais adivinhados do que vistos... Não se percebia o que a mulher gritava, nem por adivinhação... Não parecia ser nada de bom e tornava-se pior, quase fatal, à medida que se aproximava das facas líticas que constituíam a aproximação daquele farol que chamavamos o "farol do inferno".
A aflição era tormentosa, porque um dia, para substituir a bilha de gás que alimentava o farol, sofremos um rasgão no bote de borracha e se não fosse pneumático, ternos-ía-mos acidentado de forma imprevisível.
A piroga continuava a sua descida, alucinada, tocada por ventos e águas maléficas, endemoninhando uma trajectória de contornos fatais... numa súbita acalmia, os gritos da mulher que soavam imperceptíveis, parecendo terríveis e angustiados, tornaram-se num apelo doce e irresistível:
- Vem Zoão! Venho só te buscar! Salta na água vem comigo, ya? Vem só Zoão!... Zzooãooo, vem já, ó uisa!
Aquela voz, reconhecida sob todas as tormentas e até no escuro, só podia ser de uma mulher, a única cuja voz marcara, corpo a corpo, um território inconfundível em que um e um "sumavam" um... de todos os pares que se fundiam na doce emulação do centauro, de cabeça extravasado no corpo de uma mulher..
- É, angê, ó uisa - murmúrio atabalhoado de chamamento e convite.
Surda aos chamamentos e convite, a piroga embateu, fragorosamente, nas rochas do Farol do Inferno. Tragédia, horror, danação, tudo se conjugou de forma sofrida, muito magoada, na visão de uma mulher que se arriscara e, por amor, desafiou um rio em fúria.
Não sobraram destroços da piroga. Não vogavam vestígios do corpo ou do pano. Os olhos- testemunhas liquifizeram-se. Na maca, o corpo convulso agitou-se, de forma breve mas violenta. O despertar amargo, crú, foi marcado pelo balbuciar precioso - de prece, claro - que tartamudeava... Lugolina, angê, ó uisa, tou te pedir!
Maldito sonho, esse rio só pode ter "feitiço"... ché! Até de noite, o sonho voltava e revoltava.
Presságio? Premonição? Morte simbólica? O que pode um primeiro-grumete saber destas coisas?
Está visto, que este rio não é boa rês, não é não! Com ele, mesmo em sonhos, todo o cuidado é pouco. Deviam rebaptizar este rio, chamar-lhe "gatuno, chimuno, ombandi, saiba-se lá mais quê", rio que adormece para roubar mulher é mau... rio que mata para virar lembrança não é bom. Rio que rouba mulher e mata é pior... muito cuidado, ya?
Lugolina, era a mulher que o rio colheu no sonho. Zaire ou Congo é o nome do rio odiado e amado, temido desde então... por esta sem-razão e por outras com razão que adiante sem contarão.
O sonho foi longo, momentoso e com ele foi-se o almoço e a vontade de jantar. Dormir, era tudo quanto se podia pedir, sob a inclemência duma tempestade filha do Cacimbo.
Por hoje, é tudo, sofrimento é bwé.... boa-noite - se for caso disso.

