domingo, 25 de maio de 2008

Tridente, dia 3 de um homem em construcção

Ressuscitou ao terceiro dia, não porque estivesse morto, mas qual cobra mudando de pele, parecia (des)dermatizar-se da pele adolescente e mimetizar-se numa "pele" de adulto - o adultério ainda não fazia parte das regras do jogo.
As tarefas rotineiras necessárias à sobrevivência naquelas paragens sofriam-se diariamente, num aprendizado obrigatório e compulsivo, incontornável.
O facto de ser o "benjamin" da unidade era penalização certa e segura quando formávamos para a distribuição do serviço diário: primeiro, capitão das retretes, depois, moço dos botes, faxina de rancho, moço de botica, despejador de vomitado, lavador de corpos ardendo na febre da malária, contador de delírios febris, sentinela, patrulheiro de rio, abastecedor de gaz das bóias de sinalização do canal de navegação-internacional, na margem esquerda do rio Zaire, e finalmente moço da biblioteca. De tudo, aos poucos, tudo decorria num ritmo de rotina inalterável, previsível, castrante, até à emergência da dúvida... que fazia ali no desempenho de todas aquelas tarefas subtraídas na instrução? E os terroristas, que não chegavam? Que tipo de guerra era aquela?
A leitura do recorte das páginas do jornal com os diálogos entre o padre católico e Von Moltke, sobre a desconstrução da religião, era o ponto alto do dia e uma boa motivação para continuar moço da biblioteca. Acolhido aquela leitura e repensando o papel nefasto que o catolicismo teve, surgiam novas paisagens e hipóteses de vida que pareciam diferentes e apelativas. À religião estava ligada a "educação" quase reclusa na Mitra e na Casa Pia e as feridas resultantes doíam, ainda, sem penso nem pacho.
Dezoito anos, sobrevividos, estariam condenados a um fim num palco de guerra, não desejada, não escolhida, repudiada, e agora, sem qualquer duvida, odiosa?
Chegou o dia da guerra da banana... partimos cedo para um bananal que se sabia abandonado, na expectativa de colher frutos. Depois de longa marcha pela linha de cumeada, o mergulho no desnivelado afundante pelo qual se distribuía o terreno de cultivo, ora abandonado. O tempo foi correndo e na busca dos frutos, o grupo desmembrou-se. Repentinamente, a certeza de estar sozinho, perdido, sem mapa, nem bússola, sem rádio, nem pistola de sinalização: Que se fodessem as bananas, a noite vinha caindo e a saída do bananal, equação com várias incógnitas, passar a noite perdido num bananal tropical, sujeito a vários maus encontros, não se afigurava, como resolução.
A sensação de estar perdido crescia, a cada instante, as perspectivas deterioravam-se a cada momento. O dia a declinar, ninguém no horizonte visual. Deitar as bananas por terra e correr como um condenado, foi o mais lógico que se conseguiu, no afã de encontrar os camaradas mais familiarizados com a geografia do bananal que parecia varável... por onde é que andariam? que direcção tinham tomado? De súbito, um bando de macacos (cercopitecos) tomou o bananal de assalto e num alarido cacofónico a mil vozes, provocou uma fuga irracional, com términus na linha de cumeada. Cem metros à frente, com as bananas às costas como despojos de guerra seguiam os camaradas com um de regresso, resoluto, com se para trás ficassem, apenas, bananeiras e macacos.
Em correria, profundamente assustado, ainda com os tímpanos a troarem ao ritmo da algaraviada simiesca, os retirantes foram alcançados com a noite a cobrir toda a terra.
As emoções violentas, seguidas duma refeição rápida, recomendavam o retempero das forças perdidas e da adrenalina esbanjada, numa noite longa de repouso e sonhos construtivos.... Boa Noite! Foi tudo o que se conseguiu conjecturar. O repouso da aprendiz de guerreiro tomou conta de toda a realidade. UM SONHO POVOADO DE MACACOS VIRTUAIS, BOA NOITE, em definitivo.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Naufrágio-quase num dilúvio tropical

Depois da noite diluviana, o dia que nasceu era bem filho da mesma mãe. Do ventre do pesadelo nocturno nasceu um dia escuro, noite-quase, de tão cinzento, molhado, prenhe de trovões ribombantes, e rajadas de vento, que ameaçavam reduzir a nada o abarracado de madeira que servia de acampamento. Sob aquela tempestade tropical, pairava uma certeza triste a cheirar a axioma divorciado de qualquer demonstração: para onde ir? que fazer? Certeza axiomática...para parte nenhuma! Aquela chuva torrencial a cheirar a terra fértil, com húmus em fermentação, invocava, eficazmente, o balaio da mulher de Atenas - ou guerra ou balaio!
Então, paralelamente, aquela bátega tropical, qual mítico balaio, reduziu a guerra ao grau zero da sua eficácia. A chover daquela maneira nem a guerra pátria era possível. Numa retirada, que Von Clausewitz nunca teria concebido, a tropa-guerreira, jogou cartas, (des) escutou rádio - com muita estática -, escreveu muitos "bate-estradas" para esposas, namoradas, madrinhas de guerra, rádio ecclésia (emissora católica de Angola)... e até à Dª Cecília Supico Pinto. Alguns mais aplicados, limparam as armas, com tanto apego e aprumo, que bem vistas as coisas, mais pareciam carícias os gestos com limpavam as armas.
Num dia estupidamente quente, húmido, peganhento, fechados num rectângulo de 10x4 mts, atazanados por mosquitos, mesmerizados pelo tédio e com a certeza de que não havia lado nenhum para ir, vinte e cinco homens fechados num barracão-caserna, evadiram-se da guerra, diluindo-se, camuflados nos aerogramas (bate-estradas) a caminho do Puto.
Naquele dia foi assim, os aerogramas transformaram-se nos arautos de sonhos, promessas, juras de amor, pedidos de casamento, demonstrações de bravura. Consta que, as fotografias enviadas do DestacMarFuz-Tridente para as diferentes amadas da metrópole testemunhavam destemidos guerreiros em poses de Marte ou de Poseidon, possuindo as armas com um destemor e uma fúria guerreira, que quem as recebeu e as passou de mão em mão, garantiu, jurou até, que com tais soldados a vitória era certa.
Lá longe, no DestacMarfuz Tridente, contornando e sonegando as imagens compostas para deleite das amadas, os homens prolongavam com gestos voluptuosos o deboche de lubrificar as armas (G-3, bazooka, morteiro, lança-chamas, era uma secção de armas pesadas), em gestos repetidos e dengosos, como se tangessem guitarras ou passeassem as mãos carentes de afectos pelo corpo desta ou daquela mulher.
A puta da bátega é que não arredava pé... chovia por todas as roturas plúmbeas, em rajadas furiosas, numa maré diluviana que metralhava o telhado de zinco sobre a nossa cabeça e, cada trovão mais forte que o anterior, ameaçava levar para nenhures o zinco da cobertura, que numa postura de guerra resistiu metalicamente.
Não houve outro dia. Por dezoito horas ininterruptas, rio e atmosfera confundiram-se nos tons e nos soms e foram testemunhas de como naquele período de tempo a guerra não existiu.
Lá pelas 23h15zulu, a tormenta amainou. Sobrou água e humidade bastante para que o calor da noite tropical multiplicasse mosquitos incontáveis, enquanto as primeiras manifestações violentas de malária, marcaram presença e impuseram intervenção imediata.
Contra um inimigo dificílimo - a malária - quase imbatível, iria começar uma guerra, sem trégua nem quartel, face à qual táctica e estratégia, resoquina, daracolor, daraprin e outras munições disponíveis se iriam consumir sem paz nem vitória.
Aquela guerra que agora iniciávamos parecia tão perdida como nós nos sentimos perdidos naquele dia: estáticos, inúteis manipuladores de armas que raramente faziam fogo e, com frequência, se afogavam no rio ou entregavam as suas estrias à ferrugem, filha de puta, parida por aquele clima.
Negra ia a noite e, em terra de negros, eram negros os pensamentos. Boa Noite, disse às minhas pálpebras, ajeitando a bic para repousar no camuflado antes que a escrita azedasse... e, porque não...? Boa Noite, também, para as esposas, namoradas, madrinhas de guerra, destinatárias dos nossos votos: muitas aventuras e muitas prosperidades (ou eram propriedades?...) Não há lembrança exacta de uma noite que nasceu para ser esquecida. No rescaldo deste dia tormentoso um naufrágio-quase aconteceu... as consequências seguir-se-ão, mas sempre se anticipa que a ideia desta guerra, aquela incutida na preparação militar afundou-se... docemente, no calor das coxas da Lugolina.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Na noite da mata angolana... muito medo, quase terror

A primeira noite, anichado na barquinha da torre de vigilância, doze metros acima do solo, cercado por um cacimbo omnipresente, quente e pegajoso, com os fantasmas da instrucção militar recebida - terroristas, catanadas, membros decepados, ataques nocturnos de surpresa, golpes de mão para eliminação de sentinelas, bazzokadas, ataques de morteiro - associados numa imaginação excitada por mil barulhos e ruídos não identificados, despejados nos ouvidos por uma selva avessa a estranhos, era difícil saber o que fazer num espaço em que, todos os ruídos e cacimbos do mundo se tinham reunido para esquizofrenizar a imaginação? Começou o temer pela salvaguarda da limpeza das calças do uniforme e o tremer sem saber como reagir a tanto estímulo.
No estado quase delirante, a imaginação começou a formatar vultos fatasmáticos e a cacofonia dos ruídos de fundo a baralhar os tímpanos que quase castanholavam no ouvido interno. O envólucro de cacimbo plúmbeo parecia crescer e prosperar ao ritmo da imaginação delirante, sincopada, que ameaçava descontrolar os esfíncteres e manchar a honra devida à farda de um inexperiente "semper fi?".
Cinquenta metros mais longe na caserna abarracada, de cor vaga e indefenida, que da torre nem se avistava, tal era a cerração do cacimbo, os camaradas de armas dormiam o sono dos justos, sem terem que pensar que na torre de vigilância, da qual nada de se avistava, um adolescente, estreante de uma guerra que pretendia ser séria na indignidade das suas praxes e no ridículo da sua estratégia, aterrorizado procurava encontrar no pensamento uma âncora para se manter firme no cumprimento do dever.
Corria a terceira semana de Março de 1963, época do cacimbo. Para complicar as coisas, o céu rasgou-se em raios, trovões e, a torre de vigilância e o mundo à volta ameçavam afogar-se no dilúvio que desabou, bruscamente.
O espanto disponível perante tal força da natureza, despartilha, nunca antes sentida, gulosa do seu poder corrosivo, parecia querer reduzir, a terra ao estado líquido, arrastando com ela fantasmas, ruídos e bicheza.
A força da água era tanta que batia na cobertura de zinco da torre, produzindo um som metálico acagaçante.
Tal ruído, como que por magia ou feitiçaria, mudou o rumo ao pensamento, felizmente, fazendo-o derivar para territórios outros, mais consentâneos com a conservação da existência.
As perguntas, de um questionário nunca elaborado, surgiram emergentes de novos medos e terrores, num elenco de elaboração humilhante, oculto.

- Que sentido faz estar numa torre de vigia de onde nada se vê?
- Que pode ver-se num clima tropical húmido, com 100% de humidade e em plena época de cacimbo, na noite densa, quente, húmida?
- Será que a barquinha de uma torre metálica, num ponto alto, com cobertura metálica, isolada, numa meio de uma tempestade tropical, é segura ou será um ponto ideal para um quase recruta virar "churrasco?
- Que tipo de observação se pode exercer em pleno cacimbo, quando os membros da tripulação de um "zodiac, bote pneumático" não se vêm entre si, e quase não se ouvem, tal é a cerração do cacimbo e o barulho da corrente do rio Zaire?

Depois de algum matutar, a conclusão veio sem pressas... Esta guerra teria algum sentido? Alguma ponta por onde se lhe pegasse? Ou seria a resposta de um governo minoritário atoleimado, de pensamento esclerosado, que no estertor da saúde mental do seu dirigente máximo ainda fazia ouvir desvarios como: Para Angola, em força / Angola... Angola... é nossa! Que os órgãos de comunicação do regime fascista repetiam em coro num estribilho funéreo e cacofónico, mas sempre longe do teatro da guerra, à cautela!...

Enquanto estes pensamentos se sucediam, o pior que podia acontecer, localmente, aconteceu... a cerca de duzentos metros, em síncrono, um raio fortíssimo acompanhado por descomunal trovão, abriu de alto abaixo e incendiou um gigantesco embondeiro, que ficou a arder sob a chuva que caía, embotando os sentidos e tornando presente, aterrador, o nunca inimagindo.

Clamando, apressadamente, uma prece atabalhoada a um deus indisponível para acudir e com as mãos nos fundilhos das calças cumufladas, procurando camuflar o medo, que agora, se materializava mais do que nunca, controlando um esfíncter rebelde e demasiado claudicante... aconteceu uma frase estranha, premonitória: esta não é, concerteza, uma boa noite. Se deus permanecer ausente e abúlico, talvez, para os crocodilos do rio, possa vir a ser uma boa noite.
O telefone de manivela tocou no seu descanso, na barquinha, e lá de dentro, como de um milagre, saíu uma voz, que comunicou num tom metálico:
- Abandona a torre, vem para baixo!
Descer a ladeira íngreme, com um declive superior a 15%, foi uma aventura molhada, rebolada, enlameada, em direcção ao posto do Tridente, tocado a chuva torrencial, que acelerava a marcha na ladeira íngreme, virando barreira, na vizinhança de crocodilos que de noite parecem troncos. O poncho, a G3, o rádio portátil, o capacete de aço, todos contribuíam para tornar mais difícil e imponderável a acidentada descida que nem o deus apreçado quis nivelar.
Um ameaço de ataísmo nascente insinuava-se, na mente, partir da leitura de um recorte de jornal,recente, que antepunha dois personagens: Von Moltke, dialecta ateu e um padre de dialéctica perdida face ao seu opositor.
Uma ideia peregrina aconteceu e, como por milagre, deus e o padre antidialéctico foram substituídos na nossa admiração pelo ateu Von Moltke, melhor companhia para atribulações terrenas, enxarcadas e escorregadias.
Os tralhos e os malhos da laboriosa descida requereram "amacamento" urgente. Depois de enxuto e metido na maca de dormir, finalmente, pareceu que a hipótese de uma Boa-Noite era quase palpável. Para autoconvencimento foi pronunciado um pegajoso "Boa Noite", depois, aconteceu.

Na noite damata angolana... muitom medo

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Da ilusão à desilução no rio de todos os esquecimentos

Numa manhã cacimbada, a bordo de uma lancha de desembarque pequena (ldp), cinzenta escura, como o estado de espírito desatinado que teimava em pensar na Lugolina, iniciou-se a viagem em direcção a cenários de Joseph Konrad. Rumámos a estibordo e na esteira cacimbada que tudo acinzentava, Santo António do Zaire ia-se diluindo, insignificante, até ser aquilo que há umas duas semanas atrás era para mim - nada.

Começou a subida do Rio Zaire. A novidade que impregnava os sentidos tinha o efeito devastador de um feixe de luz numa película fotográfica não exposta. O curso de água navegável, a proximidade das duas margens, a vegetação luxuriante da floresta em galeria, as muílas que surgiam por estibordo, o rugido dos dois motores da LDP que arfava para vencer um corrente rápida de mais de vinte nós, os ruídos da mata ecoando, sem reconhecimento, por canais auditivos a estrearem-se em tal profusão de tons e soms; o pandemónio de ruídos confusos e indetectáveis, ocultos da vistas, na mata, desconcertavam numa cacofonia de sons nunca antes ouvidos.

A variedade do que se via e ouvia, tornou presente e palpável, a informação que o marinheiro-manobra nos dera a bordo do NRP Vasco da Gama:
- Aquele Rio engulirá alguns de vós menos afortunados. Emergia premonitória.

A paisagem e as suas cambiantes, parecia tornar palpável aquelas palavras terríveis, como se viria a confirmar, alguns meses depois. Palavras que sobrepondo-se a todos os ruídos e cheiros, se infiltravam por debaixo da pele com a força de uma premonição.

Embrulhado nestes pensamentos, a LDP aproximou-se da guarnição da Kissanga, na ilha do mesmo nome. A guarnição era constituída por fuzileiros Especiais do 1º Destacamento. Ali descarregaram-se alguns mantimentos, trocaram-se saudaçõs e zarpámos rio acima.

A bordo não dava para conversar, o rugido dos motores e a vibração da nave e a cavitação, a ré, não convidavam a trocar falas. Depois, era tudo novidade e toda a tensão parecia pouca para gravar tanta novidade e encaixar tanta apreensão - quais de entre nós serão os menos afortunados? O que nos pode acontecer num rio que não se dá ao respeito e apenas impõem medos?


Com o pensamento em tropel, surgiu a primeira grande trifurcação do rio: por bombordo a Ponta Quiombe, por bombordo, as Ilhas Bulicoco, para além destas, mas, sempre por bombordo, o Congo ex-belga. Pela proa, o canal internacional de navegação. Rapidamente e por estibordo, aflorou a barreira da Xichianga; por bombordo, depois do Bulicoco, as ilhas Penfold. Entrementes, acostámos à Pedra do Feitiço. Nova entrega de mantimentos, disparámos rio acima em direcção ao Puelo. De caminho, a paisagem em ambas as margens, confundia-se na monotonia da desertificação humana. Inesperadamente, quase do nada, surge por bombordo a cidade congolesa de Boma, com pequeno cais acostável, patentando a sua imponente fábrica de de cerveja. Surgiu, também por bombordo, uma pequena embarcação de transporte fluvial conhecida por ferro de engomar. Depois de meia-hora de navegação, toda a paisagem parecia repetir-se. O barulho estridente, mas repetitivo dos motores da LDP, convidavam ao bocejo. A vigília só era garantida à custa dos borrifos que a roda de proa rectangular da LDP arrancava ao curso do rio à força dos dois motores.

Sempre em rota ascendente, aportámos ao Puelo e, depois, à Macala onde a rotina anterior se repetiu, militarmente. Sempre por aquele rio acima, frente ao Posto da Macala, um pequeno aldeamento congolês, confirmava que não éramos os únicos habitantes daquelas paregens deserdadas de gentes e actividades.

Finalmente, depois de mais de duas horas e meia de navegação, apresentou-se-nos por estibordo o Posto do Tridente, a última guarnição de fuzileiros especiais no curso montante do Rio Zaire. Um abarracamento de madeira, vinte e cinco metros acima da linha de água, encravado na base de um monte elevado, no alto do qual espreitava a torre de vigilância erguida numa barquinha, quinze metros acima do solo. Por toda a parte, omnipresentes, milhões de mosquitos preparavam a seringa de boas-vindas, nem tímidos, nem rogados, esfaimados e insaciáveis esses hemófilos, que muito bem distiguem rios de sangue apetecíveis que correm por debaixo da pele, infelizmente, não-blindada.

No Tridente, com a secção ECCO do 3º Destacamento de Fuzileiros Especiais, iniciar-se-ia a saída da adolescência e o mergulho vertiginoso nas primeiras perplexidades da condição adulta.

Apresentado, depois de entregue a guia de marcha e a caderneta militar ao comandante de posto, a atribuição de um beliche, um jantar sóbrio e muito cansaço, surgiu a oportunidade para o primeiro sono em terra sem soba.

E, já na maca, deitado, com uma vontade enorme de vos dizer boa-noite, os olhos procuraram na cerração da noite densa de cacimbo o escape do sono. Depois de muitas voltas na maca, o sono não chegava, tal era o barulho infernal vindo da noite da mata. Quanta possibilidade de morrer de insónias, afigurou-se-me, entre duas mudanças de posição.

De súbito, todos os terrores se conjugaram: solidão, isolamento, cobras, jacarés, o rir das hienas, terroristas, fantasmas, a dificuldade de dormir, a insónia, o medo do inimigo, o calor húmido que ejaculava de todos os poros do corpo liquifeito... que merda de imbróglio. Bem, boa noite para voçês que não são desta guerra