sexta-feira, 2 de maio de 2008

Da ilusão à desilução no rio de todos os esquecimentos

Numa manhã cacimbada, a bordo de uma lancha de desembarque pequena (ldp), cinzenta escura, como o estado de espírito desatinado que teimava em pensar na Lugolina, iniciou-se a viagem em direcção a cenários de Joseph Konrad. Rumámos a estibordo e na esteira cacimbada que tudo acinzentava, Santo António do Zaire ia-se diluindo, insignificante, até ser aquilo que há umas duas semanas atrás era para mim - nada.

Começou a subida do Rio Zaire. A novidade que impregnava os sentidos tinha o efeito devastador de um feixe de luz numa película fotográfica não exposta. O curso de água navegável, a proximidade das duas margens, a vegetação luxuriante da floresta em galeria, as muílas que surgiam por estibordo, o rugido dos dois motores da LDP que arfava para vencer um corrente rápida de mais de vinte nós, os ruídos da mata ecoando, sem reconhecimento, por canais auditivos a estrearem-se em tal profusão de tons e soms; o pandemónio de ruídos confusos e indetectáveis, ocultos da vistas, na mata, desconcertavam numa cacofonia de sons nunca antes ouvidos.

A variedade do que se via e ouvia, tornou presente e palpável, a informação que o marinheiro-manobra nos dera a bordo do NRP Vasco da Gama:
- Aquele Rio engulirá alguns de vós menos afortunados. Emergia premonitória.

A paisagem e as suas cambiantes, parecia tornar palpável aquelas palavras terríveis, como se viria a confirmar, alguns meses depois. Palavras que sobrepondo-se a todos os ruídos e cheiros, se infiltravam por debaixo da pele com a força de uma premonição.

Embrulhado nestes pensamentos, a LDP aproximou-se da guarnição da Kissanga, na ilha do mesmo nome. A guarnição era constituída por fuzileiros Especiais do 1º Destacamento. Ali descarregaram-se alguns mantimentos, trocaram-se saudaçõs e zarpámos rio acima.

A bordo não dava para conversar, o rugido dos motores e a vibração da nave e a cavitação, a ré, não convidavam a trocar falas. Depois, era tudo novidade e toda a tensão parecia pouca para gravar tanta novidade e encaixar tanta apreensão - quais de entre nós serão os menos afortunados? O que nos pode acontecer num rio que não se dá ao respeito e apenas impõem medos?


Com o pensamento em tropel, surgiu a primeira grande trifurcação do rio: por bombordo a Ponta Quiombe, por bombordo, as Ilhas Bulicoco, para além destas, mas, sempre por bombordo, o Congo ex-belga. Pela proa, o canal internacional de navegação. Rapidamente e por estibordo, aflorou a barreira da Xichianga; por bombordo, depois do Bulicoco, as ilhas Penfold. Entrementes, acostámos à Pedra do Feitiço. Nova entrega de mantimentos, disparámos rio acima em direcção ao Puelo. De caminho, a paisagem em ambas as margens, confundia-se na monotonia da desertificação humana. Inesperadamente, quase do nada, surge por bombordo a cidade congolesa de Boma, com pequeno cais acostável, patentando a sua imponente fábrica de de cerveja. Surgiu, também por bombordo, uma pequena embarcação de transporte fluvial conhecida por ferro de engomar. Depois de meia-hora de navegação, toda a paisagem parecia repetir-se. O barulho estridente, mas repetitivo dos motores da LDP, convidavam ao bocejo. A vigília só era garantida à custa dos borrifos que a roda de proa rectangular da LDP arrancava ao curso do rio à força dos dois motores.

Sempre em rota ascendente, aportámos ao Puelo e, depois, à Macala onde a rotina anterior se repetiu, militarmente. Sempre por aquele rio acima, frente ao Posto da Macala, um pequeno aldeamento congolês, confirmava que não éramos os únicos habitantes daquelas paregens deserdadas de gentes e actividades.

Finalmente, depois de mais de duas horas e meia de navegação, apresentou-se-nos por estibordo o Posto do Tridente, a última guarnição de fuzileiros especiais no curso montante do Rio Zaire. Um abarracamento de madeira, vinte e cinco metros acima da linha de água, encravado na base de um monte elevado, no alto do qual espreitava a torre de vigilância erguida numa barquinha, quinze metros acima do solo. Por toda a parte, omnipresentes, milhões de mosquitos preparavam a seringa de boas-vindas, nem tímidos, nem rogados, esfaimados e insaciáveis esses hemófilos, que muito bem distiguem rios de sangue apetecíveis que correm por debaixo da pele, infelizmente, não-blindada.

No Tridente, com a secção ECCO do 3º Destacamento de Fuzileiros Especiais, iniciar-se-ia a saída da adolescência e o mergulho vertiginoso nas primeiras perplexidades da condição adulta.

Apresentado, depois de entregue a guia de marcha e a caderneta militar ao comandante de posto, a atribuição de um beliche, um jantar sóbrio e muito cansaço, surgiu a oportunidade para o primeiro sono em terra sem soba.

E, já na maca, deitado, com uma vontade enorme de vos dizer boa-noite, os olhos procuraram na cerração da noite densa de cacimbo o escape do sono. Depois de muitas voltas na maca, o sono não chegava, tal era o barulho infernal vindo da noite da mata. Quanta possibilidade de morrer de insónias, afigurou-se-me, entre duas mudanças de posição.

De súbito, todos os terrores se conjugaram: solidão, isolamento, cobras, jacarés, o rir das hienas, terroristas, fantasmas, a dificuldade de dormir, a insónia, o medo do inimigo, o calor húmido que ejaculava de todos os poros do corpo liquifeito... que merda de imbróglio. Bem, boa noite para voçês que não são desta guerra

Um comentário:

tacci disse...

Está a surgir daqui um livro.
Não me respondeste à pergunta: posso colocar no meu blog um link para aqui ou preferes manter estes primeiros textos mais privados?
Uma nota só:
Se escreves também para pessoas que nem sequer já se lembram de que houve guerra - a miudagem com menos de cinquenta - vais ter de explicar umas coisas aqui e ali.
Até eu fico a olhar: o que é uma LDP? Uma lancha de desembarque?