quarta-feira, 14 de maio de 2008

Na noite da mata angolana... muito medo, quase terror

A primeira noite, anichado na barquinha da torre de vigilância, doze metros acima do solo, cercado por um cacimbo omnipresente, quente e pegajoso, com os fantasmas da instrucção militar recebida - terroristas, catanadas, membros decepados, ataques nocturnos de surpresa, golpes de mão para eliminação de sentinelas, bazzokadas, ataques de morteiro - associados numa imaginação excitada por mil barulhos e ruídos não identificados, despejados nos ouvidos por uma selva avessa a estranhos, era difícil saber o que fazer num espaço em que, todos os ruídos e cacimbos do mundo se tinham reunido para esquizofrenizar a imaginação? Começou o temer pela salvaguarda da limpeza das calças do uniforme e o tremer sem saber como reagir a tanto estímulo.
No estado quase delirante, a imaginação começou a formatar vultos fatasmáticos e a cacofonia dos ruídos de fundo a baralhar os tímpanos que quase castanholavam no ouvido interno. O envólucro de cacimbo plúmbeo parecia crescer e prosperar ao ritmo da imaginação delirante, sincopada, que ameaçava descontrolar os esfíncteres e manchar a honra devida à farda de um inexperiente "semper fi?".
Cinquenta metros mais longe na caserna abarracada, de cor vaga e indefenida, que da torre nem se avistava, tal era a cerração do cacimbo, os camaradas de armas dormiam o sono dos justos, sem terem que pensar que na torre de vigilância, da qual nada de se avistava, um adolescente, estreante de uma guerra que pretendia ser séria na indignidade das suas praxes e no ridículo da sua estratégia, aterrorizado procurava encontrar no pensamento uma âncora para se manter firme no cumprimento do dever.
Corria a terceira semana de Março de 1963, época do cacimbo. Para complicar as coisas, o céu rasgou-se em raios, trovões e, a torre de vigilância e o mundo à volta ameçavam afogar-se no dilúvio que desabou, bruscamente.
O espanto disponível perante tal força da natureza, despartilha, nunca antes sentida, gulosa do seu poder corrosivo, parecia querer reduzir, a terra ao estado líquido, arrastando com ela fantasmas, ruídos e bicheza.
A força da água era tanta que batia na cobertura de zinco da torre, produzindo um som metálico acagaçante.
Tal ruído, como que por magia ou feitiçaria, mudou o rumo ao pensamento, felizmente, fazendo-o derivar para territórios outros, mais consentâneos com a conservação da existência.
As perguntas, de um questionário nunca elaborado, surgiram emergentes de novos medos e terrores, num elenco de elaboração humilhante, oculto.

- Que sentido faz estar numa torre de vigia de onde nada se vê?
- Que pode ver-se num clima tropical húmido, com 100% de humidade e em plena época de cacimbo, na noite densa, quente, húmida?
- Será que a barquinha de uma torre metálica, num ponto alto, com cobertura metálica, isolada, numa meio de uma tempestade tropical, é segura ou será um ponto ideal para um quase recruta virar "churrasco?
- Que tipo de observação se pode exercer em pleno cacimbo, quando os membros da tripulação de um "zodiac, bote pneumático" não se vêm entre si, e quase não se ouvem, tal é a cerração do cacimbo e o barulho da corrente do rio Zaire?

Depois de algum matutar, a conclusão veio sem pressas... Esta guerra teria algum sentido? Alguma ponta por onde se lhe pegasse? Ou seria a resposta de um governo minoritário atoleimado, de pensamento esclerosado, que no estertor da saúde mental do seu dirigente máximo ainda fazia ouvir desvarios como: Para Angola, em força / Angola... Angola... é nossa! Que os órgãos de comunicação do regime fascista repetiam em coro num estribilho funéreo e cacofónico, mas sempre longe do teatro da guerra, à cautela!...

Enquanto estes pensamentos se sucediam, o pior que podia acontecer, localmente, aconteceu... a cerca de duzentos metros, em síncrono, um raio fortíssimo acompanhado por descomunal trovão, abriu de alto abaixo e incendiou um gigantesco embondeiro, que ficou a arder sob a chuva que caía, embotando os sentidos e tornando presente, aterrador, o nunca inimagindo.

Clamando, apressadamente, uma prece atabalhoada a um deus indisponível para acudir e com as mãos nos fundilhos das calças cumufladas, procurando camuflar o medo, que agora, se materializava mais do que nunca, controlando um esfíncter rebelde e demasiado claudicante... aconteceu uma frase estranha, premonitória: esta não é, concerteza, uma boa noite. Se deus permanecer ausente e abúlico, talvez, para os crocodilos do rio, possa vir a ser uma boa noite.
O telefone de manivela tocou no seu descanso, na barquinha, e lá de dentro, como de um milagre, saíu uma voz, que comunicou num tom metálico:
- Abandona a torre, vem para baixo!
Descer a ladeira íngreme, com um declive superior a 15%, foi uma aventura molhada, rebolada, enlameada, em direcção ao posto do Tridente, tocado a chuva torrencial, que acelerava a marcha na ladeira íngreme, virando barreira, na vizinhança de crocodilos que de noite parecem troncos. O poncho, a G3, o rádio portátil, o capacete de aço, todos contribuíam para tornar mais difícil e imponderável a acidentada descida que nem o deus apreçado quis nivelar.
Um ameaço de ataísmo nascente insinuava-se, na mente, partir da leitura de um recorte de jornal,recente, que antepunha dois personagens: Von Moltke, dialecta ateu e um padre de dialéctica perdida face ao seu opositor.
Uma ideia peregrina aconteceu e, como por milagre, deus e o padre antidialéctico foram substituídos na nossa admiração pelo ateu Von Moltke, melhor companhia para atribulações terrenas, enxarcadas e escorregadias.
Os tralhos e os malhos da laboriosa descida requereram "amacamento" urgente. Depois de enxuto e metido na maca de dormir, finalmente, pareceu que a hipótese de uma Boa-Noite era quase palpável. Para autoconvencimento foi pronunciado um pegajoso "Boa Noite", depois, aconteceu.

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