segunda-feira, 9 de junho de 2008

Cacimbo e In(Amiga), ex-conjurações molhadas

O Rio Zaire ou Congo - também assim chamado - é uma massa de água, serpente gigantesca, que se estende por quatrocentos e trinta e sete quilómetro, drenando três milhões seiscentos e oitenta mil quilómetros quadrados, com uma vazão média diária de quarenta e um, mil e oitocentos metros cúbicos, engulindo na sua bacia hidrográfica, países como a R. D. Congo, República Centro Africana, Angola, R. Congo, Tanzânia, Camarões, Zâmbia, Burundi e Rwanda. Em território angolano, na zona compreendida entre Nóqui e o Soyo, a sua corrente atinge a velocidade impressionante de 25 a trinta nós, e lança-se no Oceano Atlântico, penetrando mais de cem quilómetros mar adentro inscrevendo nele a marca da iniquidade a que os homens o condenaram.
Este rio, maldito pela acção dos homens, tem sido testemunha e figurante de guerras de libertação, guerras civis, golpes de estado, guerras tribais e genocídios: Congo ex-belga, Angola, Burundi, Rwanda, são alguns dos palcos que ele banha. É grande a tentação de pensar que este rio foi "escolhido" como o vazadouro de todas as iniquidades que celebrizaram, tristemente, Utus, Tutsis e Ka, com a cumplicidade de todos os defensores dos Direitos Humanos. O Rio Zaire ou Congo, na sua bacia hidrográfica, junta alguns dos países mais ricos do mundo, potencialmente, Angola e a R.D. do Congo, e, concomitantemente, os mais pobres e deserdados, Rwanda e Burundi.
Este rio que durante dois anos foi hospedeiro imprevisível que nos acolheu, para o melhor e para o pior, deixou marcas que o tempo não conseguiu desvanecer.
Por altura da sua foz, na cidade do Soyo, antigo Santo António do Zaire, e sensível mente, a mais ou menos 5 graus a Sul do equador, este rio tropical, conjuga temperatura/humidade quase constante, de tal forma que, cacimbo e tempo seco, não deixam sobre os corpos diferenças muito perceptiveís.
As características da sua bacia hidrográfica, em território angolano são temíveis e temidas: a força da sua corrente, os depósitos de aluvião, os baixios, os afloramentos rochosos, os efeitos da sua corrente sobre as margens, planta e animais, a estreiteza do seu canal navegável, a fauna, crocodilos, hipopótamos, peixe-serra, gaviais, etc., tornam-no um rio propício a personagem de relatos reais e fictícios que lhe conferem uma fama, nem sempre merecida, mas temível onde se distinguem mal os contornos entre o real e o imaginário, o mágico, o feitiço, adiante falar-se-à da Pedra do Feitiço.

Com estes dados atafulhadosna cabeça, depois de leitura recente, e como que a comprovar a força anímica da sua realidade, a natureza da atmosfera fendeu, em todas direcções, e uma vez mais, a violência do dilúvio tropical, marca ami
udada da estação do cacimbo, garantiu mais um dia de reclusão obrigatória no interior da camarata.

Inútil afrontar o dilúvio, salvo por razões extremíssimas, e por isso, mais recomendável se torna uma retirada intimista, quase introspectiva, sob a tirania de um pensamento errático, quase neguentrópico, que nos situa entre as margens da depressão e do aniquilamento, com que a força dos elementos naturais nos ameaçam.

Estes dias, à força de se repetirem, e determinam pausas forçadas, dão azo a que o pensamento e a reflexão que não estão sujeitos à servidão militar, assomem à boca da cena e façam das suas, i.e., nos conduzam a recônditos dos quais nos queremos afastados... isto porque importam episódios vividos positivos ou negativos, indesejáveis, frequentemente.

Felizmente, não havia retretes para limpar, chão para varrer, torre para trepar. Os vomitados, estavam drenados, os corpos lavados e enxutos, a biblioteca estava em fila de espera, e, até, as batatas para o almoço eram descascadas sob a telha de zinco que vibrava sob a força bátega e rangia à ordem do vento. O ambiente ruidoso produzido pelo dilúvio tropical e pela força da ventania não convidavam a grandes conversas exigindo um esforço inútil para pouca comunicação.

Depois das tarefas possíveis concluídas e encurtando a hora de almoço, um mergulho doce e apetecível na maca, trouxe o sono e sonho...

...Sob um dilúvio que parecia antecipar o fim do mundo, rio abaixo, açoitada, baloiçada, quase soçobrando na torrente violenta de águas castanhas, avivadas por fúria endemoninhada, cirandava uma piroga, tripulada por um corpo semi-nú, que parecia gritar, para se sobrepor ao ruído do vento e das águas em fúria. Perigosamente, aproximava-se daquele farol dantesco, cercado de rochedos afiados pela erosão das águas, aguçados como facas e mais adivinhados do que vistos... Não se percebia o que a mulher gritava, nem por adivinhação... Não parecia ser nada de bom e tornava-se pior, quase fatal, à medida que se aproximava das facas líticas que constituíam a aproximação daquele farol que chamavamos o "farol do inferno".

A aflição era tormentosa, porque um dia, para substituir a bilha de gás que alimentava o farol, sofremos um rasgão no bote de borracha e se não fosse pneumático, ternos-ía-mos acidentado de forma imprevisível.

A piroga continuava a sua descida, alucinada, tocada por ventos e águas maléficas, endemoninhando uma trajectória de contornos fatais... numa súbita acalmia, os gritos da mulher que soavam imperceptíveis, parecendo terríveis e angustiados, tornaram-se num apelo doce e irresistível:
- Vem Zoão! Venho só te buscar! Salta na água vem comigo, ya? Vem só Zoão!... Zzooãooo, vem já, ó uisa!

Aquela voz, reconhecida sob todas as tormentas e até no escuro, só podia ser de uma mulher, a única cuja voz marcara, corpo a corpo, um território inconfundível em que um e um "sumavam" um... de todos os pares que se fundiam na doce emulação do centauro, de cabeça extravasado no corpo de uma mulher..

- É, angê, ó uisa - murmúrio atabalhoado de chamamento e convite.

Surda aos chamamentos e convite, a piroga embateu, fragorosamente, nas rochas do Farol do Inferno. Tragédia, horror, danação, tudo se conjugou de forma sofrida, muito magoada, na visão de uma mulher que se arriscara e, por amor, desafiou um rio em fúria.

Não sobraram destroços da piroga. Não vogavam vestígios do corpo ou do pano. Os olhos- testemunhas liquifizeram-se. Na maca, o corpo convulso agitou-se, de forma breve mas violenta. O despertar amargo, crú, foi marcado pelo balbuciar precioso - de prece, claro - que tartamudeava... Lugolina, angê, ó uisa, tou te pedir!

Maldito sonho, esse rio só pode ter "feitiço"... ché! Até de noite, o sonho voltava e revoltava.
Presságio? Premonição? Morte simbólica? O que pode um primeiro-grumete saber destas coisas?

Está visto, que este rio não é boa rês, não é não! Com ele, mesmo em sonhos, todo o cuidado é pouco. Deviam rebaptizar este rio, chamar-lhe "gatuno, chimuno, ombandi, saiba-se lá mais quê", rio que adormece para roubar mulher é mau... rio que mata para virar lembrança não é bom. Rio que rouba mulher e mata é pior... muito cuidado, ya?

Lugolina, era a mulher que o rio colheu no sonho. Zaire ou Congo é o nome do rio odiado e amado, temido desde então... por esta sem-razão e por outras com razão que adiante sem contarão.

O sonho foi longo, momentoso e com ele foi-se o almoço e a vontade de jantar. Dormir, era tudo quanto se podia pedir, sob a inclemência duma tempestade filha do Cacimbo.

Por hoje, é tudo, sofrimento é bwé.... boa-noite - se for caso disso.


domingo, 25 de maio de 2008

Tridente, dia 3 de um homem em construcção

Ressuscitou ao terceiro dia, não porque estivesse morto, mas qual cobra mudando de pele, parecia (des)dermatizar-se da pele adolescente e mimetizar-se numa "pele" de adulto - o adultério ainda não fazia parte das regras do jogo.
As tarefas rotineiras necessárias à sobrevivência naquelas paragens sofriam-se diariamente, num aprendizado obrigatório e compulsivo, incontornável.
O facto de ser o "benjamin" da unidade era penalização certa e segura quando formávamos para a distribuição do serviço diário: primeiro, capitão das retretes, depois, moço dos botes, faxina de rancho, moço de botica, despejador de vomitado, lavador de corpos ardendo na febre da malária, contador de delírios febris, sentinela, patrulheiro de rio, abastecedor de gaz das bóias de sinalização do canal de navegação-internacional, na margem esquerda do rio Zaire, e finalmente moço da biblioteca. De tudo, aos poucos, tudo decorria num ritmo de rotina inalterável, previsível, castrante, até à emergência da dúvida... que fazia ali no desempenho de todas aquelas tarefas subtraídas na instrução? E os terroristas, que não chegavam? Que tipo de guerra era aquela?
A leitura do recorte das páginas do jornal com os diálogos entre o padre católico e Von Moltke, sobre a desconstrução da religião, era o ponto alto do dia e uma boa motivação para continuar moço da biblioteca. Acolhido aquela leitura e repensando o papel nefasto que o catolicismo teve, surgiam novas paisagens e hipóteses de vida que pareciam diferentes e apelativas. À religião estava ligada a "educação" quase reclusa na Mitra e na Casa Pia e as feridas resultantes doíam, ainda, sem penso nem pacho.
Dezoito anos, sobrevividos, estariam condenados a um fim num palco de guerra, não desejada, não escolhida, repudiada, e agora, sem qualquer duvida, odiosa?
Chegou o dia da guerra da banana... partimos cedo para um bananal que se sabia abandonado, na expectativa de colher frutos. Depois de longa marcha pela linha de cumeada, o mergulho no desnivelado afundante pelo qual se distribuía o terreno de cultivo, ora abandonado. O tempo foi correndo e na busca dos frutos, o grupo desmembrou-se. Repentinamente, a certeza de estar sozinho, perdido, sem mapa, nem bússola, sem rádio, nem pistola de sinalização: Que se fodessem as bananas, a noite vinha caindo e a saída do bananal, equação com várias incógnitas, passar a noite perdido num bananal tropical, sujeito a vários maus encontros, não se afigurava, como resolução.
A sensação de estar perdido crescia, a cada instante, as perspectivas deterioravam-se a cada momento. O dia a declinar, ninguém no horizonte visual. Deitar as bananas por terra e correr como um condenado, foi o mais lógico que se conseguiu, no afã de encontrar os camaradas mais familiarizados com a geografia do bananal que parecia varável... por onde é que andariam? que direcção tinham tomado? De súbito, um bando de macacos (cercopitecos) tomou o bananal de assalto e num alarido cacofónico a mil vozes, provocou uma fuga irracional, com términus na linha de cumeada. Cem metros à frente, com as bananas às costas como despojos de guerra seguiam os camaradas com um de regresso, resoluto, com se para trás ficassem, apenas, bananeiras e macacos.
Em correria, profundamente assustado, ainda com os tímpanos a troarem ao ritmo da algaraviada simiesca, os retirantes foram alcançados com a noite a cobrir toda a terra.
As emoções violentas, seguidas duma refeição rápida, recomendavam o retempero das forças perdidas e da adrenalina esbanjada, numa noite longa de repouso e sonhos construtivos.... Boa Noite! Foi tudo o que se conseguiu conjecturar. O repouso da aprendiz de guerreiro tomou conta de toda a realidade. UM SONHO POVOADO DE MACACOS VIRTUAIS, BOA NOITE, em definitivo.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Naufrágio-quase num dilúvio tropical

Depois da noite diluviana, o dia que nasceu era bem filho da mesma mãe. Do ventre do pesadelo nocturno nasceu um dia escuro, noite-quase, de tão cinzento, molhado, prenhe de trovões ribombantes, e rajadas de vento, que ameaçavam reduzir a nada o abarracado de madeira que servia de acampamento. Sob aquela tempestade tropical, pairava uma certeza triste a cheirar a axioma divorciado de qualquer demonstração: para onde ir? que fazer? Certeza axiomática...para parte nenhuma! Aquela chuva torrencial a cheirar a terra fértil, com húmus em fermentação, invocava, eficazmente, o balaio da mulher de Atenas - ou guerra ou balaio!
Então, paralelamente, aquela bátega tropical, qual mítico balaio, reduziu a guerra ao grau zero da sua eficácia. A chover daquela maneira nem a guerra pátria era possível. Numa retirada, que Von Clausewitz nunca teria concebido, a tropa-guerreira, jogou cartas, (des) escutou rádio - com muita estática -, escreveu muitos "bate-estradas" para esposas, namoradas, madrinhas de guerra, rádio ecclésia (emissora católica de Angola)... e até à Dª Cecília Supico Pinto. Alguns mais aplicados, limparam as armas, com tanto apego e aprumo, que bem vistas as coisas, mais pareciam carícias os gestos com limpavam as armas.
Num dia estupidamente quente, húmido, peganhento, fechados num rectângulo de 10x4 mts, atazanados por mosquitos, mesmerizados pelo tédio e com a certeza de que não havia lado nenhum para ir, vinte e cinco homens fechados num barracão-caserna, evadiram-se da guerra, diluindo-se, camuflados nos aerogramas (bate-estradas) a caminho do Puto.
Naquele dia foi assim, os aerogramas transformaram-se nos arautos de sonhos, promessas, juras de amor, pedidos de casamento, demonstrações de bravura. Consta que, as fotografias enviadas do DestacMarFuz-Tridente para as diferentes amadas da metrópole testemunhavam destemidos guerreiros em poses de Marte ou de Poseidon, possuindo as armas com um destemor e uma fúria guerreira, que quem as recebeu e as passou de mão em mão, garantiu, jurou até, que com tais soldados a vitória era certa.
Lá longe, no DestacMarfuz Tridente, contornando e sonegando as imagens compostas para deleite das amadas, os homens prolongavam com gestos voluptuosos o deboche de lubrificar as armas (G-3, bazooka, morteiro, lança-chamas, era uma secção de armas pesadas), em gestos repetidos e dengosos, como se tangessem guitarras ou passeassem as mãos carentes de afectos pelo corpo desta ou daquela mulher.
A puta da bátega é que não arredava pé... chovia por todas as roturas plúmbeas, em rajadas furiosas, numa maré diluviana que metralhava o telhado de zinco sobre a nossa cabeça e, cada trovão mais forte que o anterior, ameaçava levar para nenhures o zinco da cobertura, que numa postura de guerra resistiu metalicamente.
Não houve outro dia. Por dezoito horas ininterruptas, rio e atmosfera confundiram-se nos tons e nos soms e foram testemunhas de como naquele período de tempo a guerra não existiu.
Lá pelas 23h15zulu, a tormenta amainou. Sobrou água e humidade bastante para que o calor da noite tropical multiplicasse mosquitos incontáveis, enquanto as primeiras manifestações violentas de malária, marcaram presença e impuseram intervenção imediata.
Contra um inimigo dificílimo - a malária - quase imbatível, iria começar uma guerra, sem trégua nem quartel, face à qual táctica e estratégia, resoquina, daracolor, daraprin e outras munições disponíveis se iriam consumir sem paz nem vitória.
Aquela guerra que agora iniciávamos parecia tão perdida como nós nos sentimos perdidos naquele dia: estáticos, inúteis manipuladores de armas que raramente faziam fogo e, com frequência, se afogavam no rio ou entregavam as suas estrias à ferrugem, filha de puta, parida por aquele clima.
Negra ia a noite e, em terra de negros, eram negros os pensamentos. Boa Noite, disse às minhas pálpebras, ajeitando a bic para repousar no camuflado antes que a escrita azedasse... e, porque não...? Boa Noite, também, para as esposas, namoradas, madrinhas de guerra, destinatárias dos nossos votos: muitas aventuras e muitas prosperidades (ou eram propriedades?...) Não há lembrança exacta de uma noite que nasceu para ser esquecida. No rescaldo deste dia tormentoso um naufrágio-quase aconteceu... as consequências seguir-se-ão, mas sempre se anticipa que a ideia desta guerra, aquela incutida na preparação militar afundou-se... docemente, no calor das coxas da Lugolina.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Na noite da mata angolana... muito medo, quase terror

A primeira noite, anichado na barquinha da torre de vigilância, doze metros acima do solo, cercado por um cacimbo omnipresente, quente e pegajoso, com os fantasmas da instrucção militar recebida - terroristas, catanadas, membros decepados, ataques nocturnos de surpresa, golpes de mão para eliminação de sentinelas, bazzokadas, ataques de morteiro - associados numa imaginação excitada por mil barulhos e ruídos não identificados, despejados nos ouvidos por uma selva avessa a estranhos, era difícil saber o que fazer num espaço em que, todos os ruídos e cacimbos do mundo se tinham reunido para esquizofrenizar a imaginação? Começou o temer pela salvaguarda da limpeza das calças do uniforme e o tremer sem saber como reagir a tanto estímulo.
No estado quase delirante, a imaginação começou a formatar vultos fatasmáticos e a cacofonia dos ruídos de fundo a baralhar os tímpanos que quase castanholavam no ouvido interno. O envólucro de cacimbo plúmbeo parecia crescer e prosperar ao ritmo da imaginação delirante, sincopada, que ameaçava descontrolar os esfíncteres e manchar a honra devida à farda de um inexperiente "semper fi?".
Cinquenta metros mais longe na caserna abarracada, de cor vaga e indefenida, que da torre nem se avistava, tal era a cerração do cacimbo, os camaradas de armas dormiam o sono dos justos, sem terem que pensar que na torre de vigilância, da qual nada de se avistava, um adolescente, estreante de uma guerra que pretendia ser séria na indignidade das suas praxes e no ridículo da sua estratégia, aterrorizado procurava encontrar no pensamento uma âncora para se manter firme no cumprimento do dever.
Corria a terceira semana de Março de 1963, época do cacimbo. Para complicar as coisas, o céu rasgou-se em raios, trovões e, a torre de vigilância e o mundo à volta ameçavam afogar-se no dilúvio que desabou, bruscamente.
O espanto disponível perante tal força da natureza, despartilha, nunca antes sentida, gulosa do seu poder corrosivo, parecia querer reduzir, a terra ao estado líquido, arrastando com ela fantasmas, ruídos e bicheza.
A força da água era tanta que batia na cobertura de zinco da torre, produzindo um som metálico acagaçante.
Tal ruído, como que por magia ou feitiçaria, mudou o rumo ao pensamento, felizmente, fazendo-o derivar para territórios outros, mais consentâneos com a conservação da existência.
As perguntas, de um questionário nunca elaborado, surgiram emergentes de novos medos e terrores, num elenco de elaboração humilhante, oculto.

- Que sentido faz estar numa torre de vigia de onde nada se vê?
- Que pode ver-se num clima tropical húmido, com 100% de humidade e em plena época de cacimbo, na noite densa, quente, húmida?
- Será que a barquinha de uma torre metálica, num ponto alto, com cobertura metálica, isolada, numa meio de uma tempestade tropical, é segura ou será um ponto ideal para um quase recruta virar "churrasco?
- Que tipo de observação se pode exercer em pleno cacimbo, quando os membros da tripulação de um "zodiac, bote pneumático" não se vêm entre si, e quase não se ouvem, tal é a cerração do cacimbo e o barulho da corrente do rio Zaire?

Depois de algum matutar, a conclusão veio sem pressas... Esta guerra teria algum sentido? Alguma ponta por onde se lhe pegasse? Ou seria a resposta de um governo minoritário atoleimado, de pensamento esclerosado, que no estertor da saúde mental do seu dirigente máximo ainda fazia ouvir desvarios como: Para Angola, em força / Angola... Angola... é nossa! Que os órgãos de comunicação do regime fascista repetiam em coro num estribilho funéreo e cacofónico, mas sempre longe do teatro da guerra, à cautela!...

Enquanto estes pensamentos se sucediam, o pior que podia acontecer, localmente, aconteceu... a cerca de duzentos metros, em síncrono, um raio fortíssimo acompanhado por descomunal trovão, abriu de alto abaixo e incendiou um gigantesco embondeiro, que ficou a arder sob a chuva que caía, embotando os sentidos e tornando presente, aterrador, o nunca inimagindo.

Clamando, apressadamente, uma prece atabalhoada a um deus indisponível para acudir e com as mãos nos fundilhos das calças cumufladas, procurando camuflar o medo, que agora, se materializava mais do que nunca, controlando um esfíncter rebelde e demasiado claudicante... aconteceu uma frase estranha, premonitória: esta não é, concerteza, uma boa noite. Se deus permanecer ausente e abúlico, talvez, para os crocodilos do rio, possa vir a ser uma boa noite.
O telefone de manivela tocou no seu descanso, na barquinha, e lá de dentro, como de um milagre, saíu uma voz, que comunicou num tom metálico:
- Abandona a torre, vem para baixo!
Descer a ladeira íngreme, com um declive superior a 15%, foi uma aventura molhada, rebolada, enlameada, em direcção ao posto do Tridente, tocado a chuva torrencial, que acelerava a marcha na ladeira íngreme, virando barreira, na vizinhança de crocodilos que de noite parecem troncos. O poncho, a G3, o rádio portátil, o capacete de aço, todos contribuíam para tornar mais difícil e imponderável a acidentada descida que nem o deus apreçado quis nivelar.
Um ameaço de ataísmo nascente insinuava-se, na mente, partir da leitura de um recorte de jornal,recente, que antepunha dois personagens: Von Moltke, dialecta ateu e um padre de dialéctica perdida face ao seu opositor.
Uma ideia peregrina aconteceu e, como por milagre, deus e o padre antidialéctico foram substituídos na nossa admiração pelo ateu Von Moltke, melhor companhia para atribulações terrenas, enxarcadas e escorregadias.
Os tralhos e os malhos da laboriosa descida requereram "amacamento" urgente. Depois de enxuto e metido na maca de dormir, finalmente, pareceu que a hipótese de uma Boa-Noite era quase palpável. Para autoconvencimento foi pronunciado um pegajoso "Boa Noite", depois, aconteceu.

Na noite damata angolana... muitom medo

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Da ilusão à desilução no rio de todos os esquecimentos

Numa manhã cacimbada, a bordo de uma lancha de desembarque pequena (ldp), cinzenta escura, como o estado de espírito desatinado que teimava em pensar na Lugolina, iniciou-se a viagem em direcção a cenários de Joseph Konrad. Rumámos a estibordo e na esteira cacimbada que tudo acinzentava, Santo António do Zaire ia-se diluindo, insignificante, até ser aquilo que há umas duas semanas atrás era para mim - nada.

Começou a subida do Rio Zaire. A novidade que impregnava os sentidos tinha o efeito devastador de um feixe de luz numa película fotográfica não exposta. O curso de água navegável, a proximidade das duas margens, a vegetação luxuriante da floresta em galeria, as muílas que surgiam por estibordo, o rugido dos dois motores da LDP que arfava para vencer um corrente rápida de mais de vinte nós, os ruídos da mata ecoando, sem reconhecimento, por canais auditivos a estrearem-se em tal profusão de tons e soms; o pandemónio de ruídos confusos e indetectáveis, ocultos da vistas, na mata, desconcertavam numa cacofonia de sons nunca antes ouvidos.

A variedade do que se via e ouvia, tornou presente e palpável, a informação que o marinheiro-manobra nos dera a bordo do NRP Vasco da Gama:
- Aquele Rio engulirá alguns de vós menos afortunados. Emergia premonitória.

A paisagem e as suas cambiantes, parecia tornar palpável aquelas palavras terríveis, como se viria a confirmar, alguns meses depois. Palavras que sobrepondo-se a todos os ruídos e cheiros, se infiltravam por debaixo da pele com a força de uma premonição.

Embrulhado nestes pensamentos, a LDP aproximou-se da guarnição da Kissanga, na ilha do mesmo nome. A guarnição era constituída por fuzileiros Especiais do 1º Destacamento. Ali descarregaram-se alguns mantimentos, trocaram-se saudaçõs e zarpámos rio acima.

A bordo não dava para conversar, o rugido dos motores e a vibração da nave e a cavitação, a ré, não convidavam a trocar falas. Depois, era tudo novidade e toda a tensão parecia pouca para gravar tanta novidade e encaixar tanta apreensão - quais de entre nós serão os menos afortunados? O que nos pode acontecer num rio que não se dá ao respeito e apenas impõem medos?


Com o pensamento em tropel, surgiu a primeira grande trifurcação do rio: por bombordo a Ponta Quiombe, por bombordo, as Ilhas Bulicoco, para além destas, mas, sempre por bombordo, o Congo ex-belga. Pela proa, o canal internacional de navegação. Rapidamente e por estibordo, aflorou a barreira da Xichianga; por bombordo, depois do Bulicoco, as ilhas Penfold. Entrementes, acostámos à Pedra do Feitiço. Nova entrega de mantimentos, disparámos rio acima em direcção ao Puelo. De caminho, a paisagem em ambas as margens, confundia-se na monotonia da desertificação humana. Inesperadamente, quase do nada, surge por bombordo a cidade congolesa de Boma, com pequeno cais acostável, patentando a sua imponente fábrica de de cerveja. Surgiu, também por bombordo, uma pequena embarcação de transporte fluvial conhecida por ferro de engomar. Depois de meia-hora de navegação, toda a paisagem parecia repetir-se. O barulho estridente, mas repetitivo dos motores da LDP, convidavam ao bocejo. A vigília só era garantida à custa dos borrifos que a roda de proa rectangular da LDP arrancava ao curso do rio à força dos dois motores.

Sempre em rota ascendente, aportámos ao Puelo e, depois, à Macala onde a rotina anterior se repetiu, militarmente. Sempre por aquele rio acima, frente ao Posto da Macala, um pequeno aldeamento congolês, confirmava que não éramos os únicos habitantes daquelas paregens deserdadas de gentes e actividades.

Finalmente, depois de mais de duas horas e meia de navegação, apresentou-se-nos por estibordo o Posto do Tridente, a última guarnição de fuzileiros especiais no curso montante do Rio Zaire. Um abarracamento de madeira, vinte e cinco metros acima da linha de água, encravado na base de um monte elevado, no alto do qual espreitava a torre de vigilância erguida numa barquinha, quinze metros acima do solo. Por toda a parte, omnipresentes, milhões de mosquitos preparavam a seringa de boas-vindas, nem tímidos, nem rogados, esfaimados e insaciáveis esses hemófilos, que muito bem distiguem rios de sangue apetecíveis que correm por debaixo da pele, infelizmente, não-blindada.

No Tridente, com a secção ECCO do 3º Destacamento de Fuzileiros Especiais, iniciar-se-ia a saída da adolescência e o mergulho vertiginoso nas primeiras perplexidades da condição adulta.

Apresentado, depois de entregue a guia de marcha e a caderneta militar ao comandante de posto, a atribuição de um beliche, um jantar sóbrio e muito cansaço, surgiu a oportunidade para o primeiro sono em terra sem soba.

E, já na maca, deitado, com uma vontade enorme de vos dizer boa-noite, os olhos procuraram na cerração da noite densa de cacimbo o escape do sono. Depois de muitas voltas na maca, o sono não chegava, tal era o barulho infernal vindo da noite da mata. Quanta possibilidade de morrer de insónias, afigurou-se-me, entre duas mudanças de posição.

De súbito, todos os terrores se conjugaram: solidão, isolamento, cobras, jacarés, o rir das hienas, terroristas, fantasmas, a dificuldade de dormir, a insónia, o medo do inimigo, o calor húmido que ejaculava de todos os poros do corpo liquifeito... que merda de imbróglio. Bem, boa noite para voçês que não são desta guerra

sexta-feira, 25 de abril de 2008

A doçura da inimiga não mata, conquista.

Onde deixei a Lugolina? Na esteira. Era na esteira, sempre esticada, na cubata dela, que a rotina militar, era substituída por uma faina bem mais agradável. Lugolina era jovem, talvez, mais velha dois ou três anos do que os meus recentes dezoito. Fazíamos sexo com desejo, sem regras nem perguntas, a gosto. A satisfação completava-se por algumas perguntas que se faziam no remanso post-coito.
- Zoão a tua mãe te gosta? Quem te mandou longe nesta guerra, fora da tua mãe? perguntou.
- Acho que a minha mãe gosta de mim, tal como eu gosto dela, respondi enrolando o resto da resposta, tal como fora recomendado na preparação psico-social: não facilitar informações ao inimigo.
- Porque perguntas pela minha mãe? Enrolei eu...
- Tu é doce Zoão, porque a tua mãe é boa. Me dá filho doce comigo, concluiu.

Não sei se faço justiça à Lugolina, que deveria ser enganada, metodicamente, para não passar ao inimigo informações colhidas entre suspiros e carícias. Como eu, acho que era uma jovem, pouco experiente da vida, negligenciada por um marido que mimava a primeira mulher, aquela com quem casara na missão católica. Doce como uma manga da Quissanga, suave como a brisa quente que demanda os coqueiros e os arrasta para a dança, à Lugolina coubera em sorte ter filhos, os que o marido quisesse. Por recato, mas também, por necessidade nunca, tacitamente, falámos no marido, que nem sequer atrapalhava e, talvez por isso, ficou-me a ideia de que era querido poraquela jovem mulher, pura e inocente que com o corpo pagava a liberdade do sobrinho perguiçar.
Não foram tantas quanto eu gostava as noites des-passadas, sempre a gosto e por concordância mútua. Só muitos, muitos anos depois, uma dúvida extemporânea, passada e repassada, veio habitar a incerteza de que um filho ou filha poderia ter sido deixado sem pai... estranha impressão de que tal possa ter acontecido, é, em mim, visita recorrente.

Pela Lugolina soube que o marido tencionava informar as autoridades militares das fugas frequentes da caserna de um tal segundo grumete fuzileiro especial, pela calada da noite em prevenção, não honrando as regras da guerra nem da sua casa, que vinha à zanzala fazer corpo-a-corpo com a inimiga...

A situação criada configurava uma boa oportunidade para o marido ofendido que queria retomar a posse absoluta da mulher e antecipava uma decisão, por parte das autoridades militares, que lhe seria favorável. Tinha na mão um trunfo e jogou forte.

Aceitaria uma refeição colectiva, e eu devia pagar a maior parte do custo da refeição de lavagem da honra. A refeição foi triste, a Lugolina fora mandada visitar a mãe ao kimbo de origem.

A esteira em que os nossos corpos se deram durante tantas noites foi transformada, punitivamente, na toalha de mesa em que repousavam a par o funje, o barbudo seco e a sardinha de lata com molho de tomate mais as bolachas e as cucas.

À "última ceia" presidiram o constrangimento e a vontade de provocar. O barbudo-seco ao sol, depois de cozinhado exalava um cheiro novo e estranho que irritava o nariz, maltratava o palato e agredia o estômago.

Num silêncio de cortar à catana, o barbudo foi levado à boca. A resposta imediata, reflexa, induziu o vómito que arrastou o barbudo-cadáver e a saliva que o amortalhava, sob o olhar indignado do anfitrião.

Por breves instantes, aqueles em que tudo pode acontecer, os corpos crisparam-se e a provocação teve o efeito de uma bofetada dada para deixar marca, o marido em fase de desagravamento, elevou a voz e com premeditada autoridade falou:

É comida de cão, não é patrão?

A corrida rápida em direcção a um local afastado para poder vomitar foi a resposta possível. Depois, regressado à refeição estendida na esteira, num ambiente transfigurado, o convivio morreu, ali mesmo. As palavras que se proferiram não sobreviveram à memória. O marido estava desagravado, a convivialidade desfeita. O relógio de pulso e o toque de clarim no quartel, ali perto, forneceram os últimos argumentos à retirada estratégica. Perdido o lavadeiro e, irremediavelmente, perdida a Lugolina, e já como regresso empreendido, chegou-me aos ouvidos a frase derradeira:

- Esse patrão branco que não gosta de comida de cão, como é que come as nossas mulher? Tchié, subilou cuspindo de dentes serrados.

- Chegado à caserna, a vontade de jantar em fuga, nos ouvidos ficou a martelar a fala longínqua do marido reinvestido em proprietário de mulheres várias. Pensando no ocorrido, camuflei-me no recesso da maca sonolento. Rapidamente o sono foi chegando, transportando sonhos lindos em que a Lugolina mudava do marido para mim.
No sonho, despedia-se do marido com estas palavras:
- Marido, não me espera só, yá! Vou fazer tirar informações no branco, fica bem, boa noite.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Clandestinamente, o sexo fintou o amor...

A primeira tarefa como recém-chegado foi arranjar um lavadeiro. Com o lavadeiro que devia lavar a roupa, chegou a roupa suja de casa do lavadeiro, supostamente, para eu "lavar". Explico como foi. No dia seguinte ao contacto com o lavadeiro, apareceu a mulher daquele que me convocou para a porta de armas e disse:
Patrão tens de me dar dinheiro porque o meu irmão está preso na administração porque não trabalha!
Seguiu-se um diálogo que não vem muito ao caso. Argumentaram, ambas as partes, e terminámos num acordo: quem paga multa dorme com que recebe o dinheiro da multa, assim, se mais.
Depois do jantar, com a unidade em prevenção rigorosa, ignorando todas as estratégias da acção psicossocial, havia que cumprir o contrato e apossar-me da dama negociada. Imprudentemente, com o coração em sobressalto, um pequeno corte no arame da vedação, e eis-me na sanzala, nos braços da Lugolina. Agora a braços com um outro tipo de problema: a mulher do lavadeiro... como seria a coisa? Coisa preta, dizia-me o coração descompassado.
Da nossa noite vou dizer é nada, basta acrescentar que ambos gostámos e combinámos repetir e, por várias noites seguidas assim foi, mesmo assim. Chegou o cansaço agradável e doce que se segue a uma relação sexual satisfatória. Antes que pensem o pior, Boa noite para os que dormem na caserna porque na esteira está-se melhor. Se amanhã, à noite, depois de estar com a a Lugolina, se o tempo sobrar, passo-vos mais uma dicas. Foi assim que o sexo entre dois fintou o amor do homem da Lugolina.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Na esteira de Diogo Cão...por esse rio acima

Logo que o sol da manhã desvaneceu a toalha de neblina que toldava a paisagem ao redor do NRP Vasco da Gama, este pareceu emergir dum banco de nevoeiro onde estivera encalhado. O deslizar veloz e ruido do ferro de fundear através dos ovens anunciou a faina de fundear. Depois do ferro engulido pelas águas ter fundeado o navio tocou o apito de "volta à faina". Chegámos à boca da foz do rio Zaire. Em volta todo o rio visível era de um tom de lama acastanhada, transportando detritos de aluvião: arbustos, capim, jacintos-de-água, pequenas ilhotas de terra com gramíneas deslizavam, velozmente, na corrente do rio como se quisessem fugir do território banhado por este rio sujo, sinuoso, ameaçador de vidas e bens, devorador de homem.
As primeiras imagens colhidas deste rio, nunca antes visto, nem comparável a nada já visto determinaram intuitivamente um mapa misto de apreensões e sobressaltos, de potenciais ameaças ocultas, de perigos e emboscadas letais em cada volta e cada braço de rio. A chegada da lancha de desembarque pequena (LDP) chegou para nos conduzir a terra. Rapidamente conduzidos ao aquartelamento que nos esperava, a duas centenas de metros de distância, constituído por pequenas casernas com telhados de lusalite no CADFE, junto ao litoral norte, de Santo António do Zaire, actualmente, Soyo na bacia petrolífera do mesmo nome.
Depois da distribuição das casernas, instalação do pessoal, colocar a maca e guardar os pertences soou o clarim covocando para o almoço naquele toque inconfundível traduzido pela expressão "quem não vem não come... quem não vem não come...quem não vem não come", imperdível!
Após o almoço, o contacto com camaradas de armas residentes. Constituíamos o 4º Destacamento de Fuzileiros Especiais. Este era constituído, maioritariamente, por homens que se conheciam desde Março de 1962, data do alistamento. Duma companhia de 150 homens, metade fizera a recruta, o ITE e a especialidade (Curso de Fuzileiro Especial), de seguida, e após receber a boina, foi constituído o destacamento enviado para Angola, de avião, no qual fomos integrados.
Seguia no Destacamento na situação de reserva e iria avançar para onde fosse preciso.
Depois da "volta ao serviço" no fim da tarde, deslocámo-nos em grupo para a Vila de Santo António do Zaire. Esta Vila era constituída por três ruas perpendiculares que atravessavam a Vila, longitudinalmente. A do meio, a principal, era a maior, pois que, atravessava toda a vila desde a orla ribeirinha ao capo de aviação, limite da vila.
Três ruas perpendiculares, pequenas, compunham a rede urbana da vila, com três bares: o do cinema, o Soto e o Manel do Yangala. Ex-libris da vila: D. Miguel Roto Corno Pacaça Guarda Numacarabenda (o nome seguinte era indicado com o indicador direito baixando sobre a palma da mão esquerda e pronunciando) O Único, o Velho Simões, alcunhado pelos kissolongos como "Mukangala-o Solitário), por lhes afigurar o velho elefante solitário, o pai da Xica, com o seu Land Rover, verde, descapotado, a gasolina, o Soto por razões infames indeclináveis, o pide guimarães, o josé maria do bar, o Caseiro e poucos mais. Naquele noite a vila foi devassada na sua quintessência - nada.
A noite foi limitada por uma corrida aos bares, apresentações, apertos de mão, abraços, uns copos e uma inofensíva bebedeira de boas-vindas. Dava vontade de dizer como os "snobs ingleses" What a lovely war!
Ao primeiro encontro compareceram todos os mosquitos disponíveis e em serviço. Lambuzaram-se com o nosso sangue, engordaram e cagaram-nos nas veias. Para nós ficou apenas disponível e embrulhado em vapor etílico, o desejo de uma boa noite.


segunda-feira, 14 de abril de 2008

Thalassa...thalassa, tanto mar

08:00h/Zulu. Fazendo lembrar formigas num carreiro, setenta e oito homens carregando maca e saco da ordem, sobem pela prancha, como se zarpar fosse tarefa urgente. O apito de faina manda começar a manobra de largar cabos e aproar ao mar largo. Encontrado o lugar para poisar maca e saco da ordem, deslocamento acelerado para a amura de bombordo para encher os olhos e o cérebro com as imagens possíveis de Luanda a afastar-se à popa.
Para muitos de nós é a primeira viagem em mar largo... de profundis, tal foi o impacto que se seguiu. Pela frente, mar de pequena vaga, cavada. O NRP 496, balançava num avanço de montanha russa e a temperatura começava a cair. Salpicos de água gelada do oceano atlântico, convidavam à procura de abrigo. Na altura, o refúgio ideal parecia ser a casa da máquina. O conforto quente e modorrento que se libertava da máquina a trabalhar a meia-avante, foi como que um bálsamo que aqueceu, por momentos. Nuvens cinzentas foram surgindo à proa e pela amura de estibordo, má viagem. Poucas milhas adiante, tudo virou cinzento: o céu, o mar e o humor. Uma náusea cinzenta, urgente, impossível de conter, originou corrida desesperada para junto da amurada, alijando ao mar, em convulsões sincopadas, tudo o que o estômago tinha armazenado ao pequeno almoço. Ao levantar a cabeça para respirar, encontraram-se vários pares de olhos, todos até então, ocupados na tarefa de verem para onde caía o vomitado. O mar começara a baptizar os chamados "marujos de água doce". Pela cabeça dorida e desorientada vagueava Fernado Pessoa. "Ó mar salgado, quanto do teu sal.." Que puta de motivação para a poesia num momento em que as tripas pareciam querer seguir o vomitado em direcção ao mar.
Seguiu-se o vómito seco, em que cada movimento peristáltico dói como um cólica, e a boca amarga com o gosto da bílis. De repente, a impressão que céu e mar ficavam mais cinzentos, a vaga mais cavada, a cabeça mais vazia, reclamando com urgência um ponto de apoio. No meio de um mal-estar insuportável, uma busca desalentada para um abrigo contra os salpicos oceânicos, o vento e o enjoo. As duas calhas das bombas de profundidade surgiram do nada como o abrigo perfeito. Estendida a maca, alongado o corpo para debaixo das calhas, ponche por cima. Lá em baixo, tudo parecia perfeito, mesmo a hora do jantar que se afastava acompanhada de náuseas e vómito seco.
Já esta felicidade durava à algum tempo pouco, quando um abanão enérgico trouxe à consciência à pergunta inoportuna que alguém me fazia:
- Filho da escola, não vais jantar? Posso comer o teu rancho?
Suponho que respondi qualquer coisa e voltei-me para o outro lado, tentando retomar a modorra. Depois, tive a impressão que navio afocinhou, primeiro, depois levantou a proa e bateu com violência. Ficou-me a impressão que tinha mijado nas calças, tal foi o calafrio...
Levantei-me com o mar grosso e jinguei, como pude, pensando... se esta merda se afundar... os tubarões aparecerão?

Depois de algumas milhas náuticas, pensando como estava a ser desagradável o "baptismo de mar", este foi amansando e deu para olhá-lo. De cinzento tinha virado castanho térreo e pela proa da fragata vogavam espécimens vegetais de entre os quais pareciam abundar os jacintos-de-água.

De caminho perguntei a um cabo manobra que me pareceu rodados naquelas andanças porque é que as águas, agora, acastanhadas transportavam tanta vegetação e pareciam alucinadas correndo mar adentro. A resposta sobressaltou, em vez de aquietar:
Este é o Rio Zaire que tem uma corrente de vinte e cinco nós entra cem quilómetros pelo mar dentro, e mais te digo: se não tiverem cuidado há-de engolir muitos de vós.
Agradeci e fui pensando o que quereria dizer com tal discurso? Premonitório?

Meses depois, a duras custas, quando por altura de um abalrroamento, o rio Congo enguliu 105 camaradas, aquele discurso assaltou-me como a frigidez de um dizer de pitonisa.

A tarde caía cinzenta a pique no mar e cinzentos eram os pensamentos com que me recolhi, por debaixo das bombas de profundidade. Pensativo e angustiado, mal disposto e faminto, procurei anticipar o sono fugidio. Pela nesga de céu entre duas cargas de profundidade vi chegar a primeira estrela e pensei, vou dizer boa noite, antes que adormeça. Depois de um dia de cão azarado, que seja mesmo uma boa noite.

sábado, 12 de abril de 2008

O mar que vai dar ao rio

Dias em Luanda, poucos...apesar de tudo, duas saídas, breves, a pé - dinheiro ausente e pré no horizonte longínquo dos dossiers confidenciais. A caminhada a pé até Luanda, cerca de 3 a 4 quilómetros, estava garantida por escassez de machimbombos e nenhuma oferta de boleia. Quem queria ir alinhava num grupo de chiste e conversa fácil para encurtar o caminho. Logo na primeira saída, impressionou a multiplicidade das cores e luzes da Luanda, - que nunca jibóia -, e a superfície espelhada da Baía, que, ciosamente, guarda num seu fundo assoreado os fungos, vírus e bactérias que germinam na pústula citadina. Tudo bem guardado, sob uma superfície argentina, só denunciada pelo cheiro nauseabundo que exala em maré baixa. Cedo descobrimos a parte baixa da Luanda Velha dos Coqueiros, rainha Ginga, o Baleizão qual palácio das cassatas e dos queijos alentejanos aprisionados e afogados em frascos de boca. Avançando, cidade adentro, adejámos o Pólo Norte, a Biker, a Versailles, o Rialto e avistámos o prédio da L´étoile, posteriormente homologado como danceteria juvenil da cidade, postado num 13º andar sobra a Baía de todos os encantos, em praia-mar. Em deslocação para a Mutamba, fomos supreendidos pelo repicar do sino da Sé, qual relógio de aldeia da metrópole cristã, distante, mas presente, nas memórias diversas de cada um de nós. É tarde, hora de todos os regressos contra-vontade, mas o "book" - vais pó book filho da escola -, que recolhe todas as nossas condutas indisciplinadas é um inimigo a evitar. quando afrontado, come a nossa licença, e dejecta na nossa caderneta - cadastro - guardas, plantões, faxinas, detenção e até prisão, por isso é temido, mas, não é respeitado.
Posta em prática a retirada na direcção da Ilha de Nossa Senhora do Cabo, onde se situa a nossa base militar, corremos batendo com o pé direito no chão de quatro em quatro passos e, por provocação, um arroto, um peido, ou uma boca marcial, abandalham a postura militar.
Em passo de corrida, ultrapassámos a Estátua d
a Senhora do Cabo e, repentinamente, desacelerámos para identificar a direcção e local onde decorria um arrebita. As vozes e as percussões entrelaçavam-se numa polifonia de vozes e num turbilhão de corpos que evoluíam em contorsões rígidas e sincopadas. Ali, ao vivo e a cores, o primeiro merengue, quente, convulsivo, convidativo e, sobretudo, muito contagiante. Os corpos cor ébano, suados, luzidios, libertavam cheiros fortes, sobrepondo-se à salsugem e à tarimba cheia de magumba a secar. Os corpos contorcidos num ritmo desconhecido e cheio de feitiço davam ideias, mas que ficavam ideias confusas, desafiantes, vorazes e muito eróticas. Paradoxalmente, tudo acontecia num pureza gentia, junto à barra do manto de Nossa Senhora da Ilha do Cabo. Como num jogo de diz que disse, mais adiante, no Afonso Soeiro, as mesmas danças, idênticos corpos, ritmos, cheiros e desejos. Aqueles dezoito anos, estreados de fresco, não encaixavam tanta sensação e emoção, assim, um pouco à toa, talvez numa mensagem emergente do fundo do tracto olfactivo, o ar cheirava a amor feito de fresco. As pernas mais pesadas do que as pálpebras lançavam apelos irrecusáveis ao afundamento na cama ali a algumas centenas de metros.
O apelo de Morfeu tinha o peso das coisas que não se recusam, urgentes. A caminhada fora longa e feita, parcialmente, em passo de corrida; a descoberta dos corpos nús, contorcidos em danças de tesão e de amor, descoberta que acicatava os sentidos, os cheiros intensos e confusos sobrepunham-se numa confusão difícil de ordenar, mas antecipavam a possibilidade de sonhos muito desejados.
Transposto o portão da base, com a caserna e a cama já à vista, alguém avisa:
Amanhã é dia de afrontar o grande mar que desagua num rio, que tem a fama de um inferno vivo - O Rio Zaire ou Rio Congo, a gosto.
Feitas à justa as necessidades urgentes, um mergulho profunda na maca, uma queda vertiginosa no sono adiado... desculpem...quase esquecia o Boa Noite para vocês. Rapidamente, como num córrego, misturam-se águas do rio dos infernos e danças com ritmos infernais dominaram o sono do sohador. Lentamente, o lençol leve que cobria o corpo metamorfoseou-se numa tenda de campismo erguida num prumo, pequeno, mas a prumo.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Luanda, ainda, e sempre

A guerra colonial eclodira em 4 de Fevereiro de 1961. Neste momento, são 03:30 zulu, nas Instalações Navais da Ilha de Nossa Senhora do Cabo. Estamos a 2 de Março de 1963... fiz hoje os meus primeiros 18 anos. Supostamente, em guerra - penso eu. Nesta suposição, esta unidade da marinha devia encontrar-se em situação de alerta, qualquer coisa como DEFCON2. Inesperadamente, uma viatura ligeira, deslizando, au ralenti, trava a duas metros da sentinela que brada:
- Quem vem lá faça alto! Diga o Santo!
Uma voz respondeu em surdina:
- Sheeeeeee! Não grite, pode acordar a unidade. Eu sou filha do comandante da base, venho da "boite", deixe-me entrar.
- Não posso sem bradar pelo cabo da guarda!
- Não faça isso, deixe-me entrar.
Como era uma situação não prevista pelos discípulos militares portugueses de Von Clausewitz, deixei entrar a "boazona", que exalava um certo odor que me pareceu de "catinga". Seria?
Embora inexperiente pensei que no amor como na guerra, para alguns, vale tudo.
Estranha guerra esta. Se o comandante, caça a menina a invadir a casa familiar com os sapatos na mão e a cheirar a "catinga", vai sobrar para mim. Pensando bem, não tenho safa. Queria-me parecer que mais este incidente não era bom prenúncio para a minha carreira. Se isto continua assim, estou fodido, pensei.
A corrediça da porta de armas chiou e assaltou-me a ideia que o comandante da base viria para me interrogar sobre as condições da entrada clandestina da filha na Unidade. Apertaram-se-me os esfíncteres com o cagaço do que me iria acontecer. Tomei uma posição de sentinela alerta e esperei pela bronca antecipada. Escassos segundos de terror, suspendida a respiração, de repente estala uma ordem seca e marcial que diz:
- Venho render-te, podes ir deitar-te!

De arma ao alto, em passo de corrida, só parei na retrete. Ali, no escuro da noite, com o coração a bater, evacuei o medo sob forma sólida e líquida, e, se bem me lembro, gasosa, segura- mente. Mas que merda de embróglio!

De esfíncteres descomprimidos, fui assaltado por uma merecida vontade de dormir e sonhar. Caí na maca, mas sempre fui dizendo: foda-se! escapei de boa. Boa Noite!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Luanda, a magnífica, afectiva, promitente

O primeiro contacto com o céu do deserto sahariano, ainda que arrefecido pelos ineficazes ventiladores do avião, produziu um incidente inesperado: a caneta de tinta permanente, residente no bolso esquerdo do corpete, de um branco imaculado, ornado a azul no quadrilátero por onde emergia o pescoço, pressionada pela pressão e temperatura da cabine de voo, descarregou toda a tinta permanente, de cor azul na alvura do corpete. Foi assim que entrei em Luanda, húmido, sujo, com o corpete pintado de azul, ressentido. Ignorando a propensão das canetas de tinta permanente aerotransportadas para "ejaculação área, precoce e indesejada", arrostei sozinho, o desconforto da nódoa azul, grande como um céu, cravada no peito com desamor.
O jovem fuzileiro, que deixara Lisboa vinte horas antes, revoltado por ser forçado a embarcar sem escolha, exibia, publicamente, uma nódoa de tinta permanente que ofuscava a alvura do corpete da farda branca de verão.
Desembarcar em Luanda, às 20:30 horas, do dia 1 de Março de 1963, com um corpete imundo de suor sahariano, uma nódoa de pelikan azul, cinco coroas no bolso (dois escudos e cinquenta centavos), ignorante de tudo sobre Angola, em véspera de fazer 18 anos, não augurava nada de bom. Foi triste a forma como apareci na soleira da porta de S. Paulo da Assunção de Luanda.
Dia 2 de Março de 1963. De serviço de sentinela à porta de armas, uma Mission (laranjada), adquirida com as cinco coroas sobrantes, numa venda da Ilha, um jantar incaracterístico comido de sopetão para regressar ao posto de sentinela, ninguém a cantar os parabéns a você, agudizaram em mim a percepção de que me tinham escolhido por engano ou erro de avaliação para entrar em Angola sujo, teso, ignorante, com uma nódoa, em vez, de uma medalha ao peito, e que o meu futuro naquela terra de humidade, calor e mosquitos evoluiria de azul pelikan para cinzento de chumbo. Fiquei com a impressão de que aquele fuzileiro, quase imberbe, transpirado, sujo, de nódoa azul ao peito inspiraria, certamente, mais escárnio que temor. Rememorando estas ocorrências, alimento a esperança de que o meu quarto de sentinela passe mais depressa. São 03:00 h da manhã, Boa Noite, para todos vós.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Africa, renascer

A ordem foi peremptória: Vais! Embarcas dia 28 de Fevereiro de 1963, vê se não falhas o embarque.
Na noite do embarque, casualmente, encontram-se no Aeroporto, o 2º grumete FZE a a jovem varina. Ambos jovens e as perguntas costumeiras:
- Para onde vais?
- Para Angola.
- Qures ir? És voluntário para Angola?
- Não, fui mobilizado.
- Porque não desertas e vens viver comigo?

O convite foi reforçado com um beijo, quente, húmido - fazia muito frio. Depois de vários beijos, o aviso: "4º Destacamento de Fuzileiros Especiais, comparecer na sala de embarque". Eram 23:45 H, na pista o quadrimotor superconstelattion aguardava. Carregou, rolou, descolou, descreveu um arco de círculo sobre as instalações da Sacor. Abaixo do bojo da aeronave que roncava no esforço da subida, um mar de pontos de luz, imagem da cidade de Lisboa. Imagem nova, resplandecente, só muito mais tarde compreendi a mensagem... "Se agora vais de partida... que vida boa era a de Lisboa"
Sobre o deserto do Sahra, chegou o sonho, Boa Noite.