sexta-feira, 25 de abril de 2008

A doçura da inimiga não mata, conquista.

Onde deixei a Lugolina? Na esteira. Era na esteira, sempre esticada, na cubata dela, que a rotina militar, era substituída por uma faina bem mais agradável. Lugolina era jovem, talvez, mais velha dois ou três anos do que os meus recentes dezoito. Fazíamos sexo com desejo, sem regras nem perguntas, a gosto. A satisfação completava-se por algumas perguntas que se faziam no remanso post-coito.
- Zoão a tua mãe te gosta? Quem te mandou longe nesta guerra, fora da tua mãe? perguntou.
- Acho que a minha mãe gosta de mim, tal como eu gosto dela, respondi enrolando o resto da resposta, tal como fora recomendado na preparação psico-social: não facilitar informações ao inimigo.
- Porque perguntas pela minha mãe? Enrolei eu...
- Tu é doce Zoão, porque a tua mãe é boa. Me dá filho doce comigo, concluiu.

Não sei se faço justiça à Lugolina, que deveria ser enganada, metodicamente, para não passar ao inimigo informações colhidas entre suspiros e carícias. Como eu, acho que era uma jovem, pouco experiente da vida, negligenciada por um marido que mimava a primeira mulher, aquela com quem casara na missão católica. Doce como uma manga da Quissanga, suave como a brisa quente que demanda os coqueiros e os arrasta para a dança, à Lugolina coubera em sorte ter filhos, os que o marido quisesse. Por recato, mas também, por necessidade nunca, tacitamente, falámos no marido, que nem sequer atrapalhava e, talvez por isso, ficou-me a ideia de que era querido poraquela jovem mulher, pura e inocente que com o corpo pagava a liberdade do sobrinho perguiçar.
Não foram tantas quanto eu gostava as noites des-passadas, sempre a gosto e por concordância mútua. Só muitos, muitos anos depois, uma dúvida extemporânea, passada e repassada, veio habitar a incerteza de que um filho ou filha poderia ter sido deixado sem pai... estranha impressão de que tal possa ter acontecido, é, em mim, visita recorrente.

Pela Lugolina soube que o marido tencionava informar as autoridades militares das fugas frequentes da caserna de um tal segundo grumete fuzileiro especial, pela calada da noite em prevenção, não honrando as regras da guerra nem da sua casa, que vinha à zanzala fazer corpo-a-corpo com a inimiga...

A situação criada configurava uma boa oportunidade para o marido ofendido que queria retomar a posse absoluta da mulher e antecipava uma decisão, por parte das autoridades militares, que lhe seria favorável. Tinha na mão um trunfo e jogou forte.

Aceitaria uma refeição colectiva, e eu devia pagar a maior parte do custo da refeição de lavagem da honra. A refeição foi triste, a Lugolina fora mandada visitar a mãe ao kimbo de origem.

A esteira em que os nossos corpos se deram durante tantas noites foi transformada, punitivamente, na toalha de mesa em que repousavam a par o funje, o barbudo seco e a sardinha de lata com molho de tomate mais as bolachas e as cucas.

À "última ceia" presidiram o constrangimento e a vontade de provocar. O barbudo-seco ao sol, depois de cozinhado exalava um cheiro novo e estranho que irritava o nariz, maltratava o palato e agredia o estômago.

Num silêncio de cortar à catana, o barbudo foi levado à boca. A resposta imediata, reflexa, induziu o vómito que arrastou o barbudo-cadáver e a saliva que o amortalhava, sob o olhar indignado do anfitrião.

Por breves instantes, aqueles em que tudo pode acontecer, os corpos crisparam-se e a provocação teve o efeito de uma bofetada dada para deixar marca, o marido em fase de desagravamento, elevou a voz e com premeditada autoridade falou:

É comida de cão, não é patrão?

A corrida rápida em direcção a um local afastado para poder vomitar foi a resposta possível. Depois, regressado à refeição estendida na esteira, num ambiente transfigurado, o convivio morreu, ali mesmo. As palavras que se proferiram não sobreviveram à memória. O marido estava desagravado, a convivialidade desfeita. O relógio de pulso e o toque de clarim no quartel, ali perto, forneceram os últimos argumentos à retirada estratégica. Perdido o lavadeiro e, irremediavelmente, perdida a Lugolina, e já como regresso empreendido, chegou-me aos ouvidos a frase derradeira:

- Esse patrão branco que não gosta de comida de cão, como é que come as nossas mulher? Tchié, subilou cuspindo de dentes serrados.

- Chegado à caserna, a vontade de jantar em fuga, nos ouvidos ficou a martelar a fala longínqua do marido reinvestido em proprietário de mulheres várias. Pensando no ocorrido, camuflei-me no recesso da maca sonolento. Rapidamente o sono foi chegando, transportando sonhos lindos em que a Lugolina mudava do marido para mim.
No sonho, despedia-se do marido com estas palavras:
- Marido, não me espera só, yá! Vou fazer tirar informações no branco, fica bem, boa noite.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Clandestinamente, o sexo fintou o amor...

A primeira tarefa como recém-chegado foi arranjar um lavadeiro. Com o lavadeiro que devia lavar a roupa, chegou a roupa suja de casa do lavadeiro, supostamente, para eu "lavar". Explico como foi. No dia seguinte ao contacto com o lavadeiro, apareceu a mulher daquele que me convocou para a porta de armas e disse:
Patrão tens de me dar dinheiro porque o meu irmão está preso na administração porque não trabalha!
Seguiu-se um diálogo que não vem muito ao caso. Argumentaram, ambas as partes, e terminámos num acordo: quem paga multa dorme com que recebe o dinheiro da multa, assim, se mais.
Depois do jantar, com a unidade em prevenção rigorosa, ignorando todas as estratégias da acção psicossocial, havia que cumprir o contrato e apossar-me da dama negociada. Imprudentemente, com o coração em sobressalto, um pequeno corte no arame da vedação, e eis-me na sanzala, nos braços da Lugolina. Agora a braços com um outro tipo de problema: a mulher do lavadeiro... como seria a coisa? Coisa preta, dizia-me o coração descompassado.
Da nossa noite vou dizer é nada, basta acrescentar que ambos gostámos e combinámos repetir e, por várias noites seguidas assim foi, mesmo assim. Chegou o cansaço agradável e doce que se segue a uma relação sexual satisfatória. Antes que pensem o pior, Boa noite para os que dormem na caserna porque na esteira está-se melhor. Se amanhã, à noite, depois de estar com a a Lugolina, se o tempo sobrar, passo-vos mais uma dicas. Foi assim que o sexo entre dois fintou o amor do homem da Lugolina.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Na esteira de Diogo Cão...por esse rio acima

Logo que o sol da manhã desvaneceu a toalha de neblina que toldava a paisagem ao redor do NRP Vasco da Gama, este pareceu emergir dum banco de nevoeiro onde estivera encalhado. O deslizar veloz e ruido do ferro de fundear através dos ovens anunciou a faina de fundear. Depois do ferro engulido pelas águas ter fundeado o navio tocou o apito de "volta à faina". Chegámos à boca da foz do rio Zaire. Em volta todo o rio visível era de um tom de lama acastanhada, transportando detritos de aluvião: arbustos, capim, jacintos-de-água, pequenas ilhotas de terra com gramíneas deslizavam, velozmente, na corrente do rio como se quisessem fugir do território banhado por este rio sujo, sinuoso, ameaçador de vidas e bens, devorador de homem.
As primeiras imagens colhidas deste rio, nunca antes visto, nem comparável a nada já visto determinaram intuitivamente um mapa misto de apreensões e sobressaltos, de potenciais ameaças ocultas, de perigos e emboscadas letais em cada volta e cada braço de rio. A chegada da lancha de desembarque pequena (LDP) chegou para nos conduzir a terra. Rapidamente conduzidos ao aquartelamento que nos esperava, a duas centenas de metros de distância, constituído por pequenas casernas com telhados de lusalite no CADFE, junto ao litoral norte, de Santo António do Zaire, actualmente, Soyo na bacia petrolífera do mesmo nome.
Depois da distribuição das casernas, instalação do pessoal, colocar a maca e guardar os pertences soou o clarim covocando para o almoço naquele toque inconfundível traduzido pela expressão "quem não vem não come... quem não vem não come...quem não vem não come", imperdível!
Após o almoço, o contacto com camaradas de armas residentes. Constituíamos o 4º Destacamento de Fuzileiros Especiais. Este era constituído, maioritariamente, por homens que se conheciam desde Março de 1962, data do alistamento. Duma companhia de 150 homens, metade fizera a recruta, o ITE e a especialidade (Curso de Fuzileiro Especial), de seguida, e após receber a boina, foi constituído o destacamento enviado para Angola, de avião, no qual fomos integrados.
Seguia no Destacamento na situação de reserva e iria avançar para onde fosse preciso.
Depois da "volta ao serviço" no fim da tarde, deslocámo-nos em grupo para a Vila de Santo António do Zaire. Esta Vila era constituída por três ruas perpendiculares que atravessavam a Vila, longitudinalmente. A do meio, a principal, era a maior, pois que, atravessava toda a vila desde a orla ribeirinha ao capo de aviação, limite da vila.
Três ruas perpendiculares, pequenas, compunham a rede urbana da vila, com três bares: o do cinema, o Soto e o Manel do Yangala. Ex-libris da vila: D. Miguel Roto Corno Pacaça Guarda Numacarabenda (o nome seguinte era indicado com o indicador direito baixando sobre a palma da mão esquerda e pronunciando) O Único, o Velho Simões, alcunhado pelos kissolongos como "Mukangala-o Solitário), por lhes afigurar o velho elefante solitário, o pai da Xica, com o seu Land Rover, verde, descapotado, a gasolina, o Soto por razões infames indeclináveis, o pide guimarães, o josé maria do bar, o Caseiro e poucos mais. Naquele noite a vila foi devassada na sua quintessência - nada.
A noite foi limitada por uma corrida aos bares, apresentações, apertos de mão, abraços, uns copos e uma inofensíva bebedeira de boas-vindas. Dava vontade de dizer como os "snobs ingleses" What a lovely war!
Ao primeiro encontro compareceram todos os mosquitos disponíveis e em serviço. Lambuzaram-se com o nosso sangue, engordaram e cagaram-nos nas veias. Para nós ficou apenas disponível e embrulhado em vapor etílico, o desejo de uma boa noite.


segunda-feira, 14 de abril de 2008

Thalassa...thalassa, tanto mar

08:00h/Zulu. Fazendo lembrar formigas num carreiro, setenta e oito homens carregando maca e saco da ordem, sobem pela prancha, como se zarpar fosse tarefa urgente. O apito de faina manda começar a manobra de largar cabos e aproar ao mar largo. Encontrado o lugar para poisar maca e saco da ordem, deslocamento acelerado para a amura de bombordo para encher os olhos e o cérebro com as imagens possíveis de Luanda a afastar-se à popa.
Para muitos de nós é a primeira viagem em mar largo... de profundis, tal foi o impacto que se seguiu. Pela frente, mar de pequena vaga, cavada. O NRP 496, balançava num avanço de montanha russa e a temperatura começava a cair. Salpicos de água gelada do oceano atlântico, convidavam à procura de abrigo. Na altura, o refúgio ideal parecia ser a casa da máquina. O conforto quente e modorrento que se libertava da máquina a trabalhar a meia-avante, foi como que um bálsamo que aqueceu, por momentos. Nuvens cinzentas foram surgindo à proa e pela amura de estibordo, má viagem. Poucas milhas adiante, tudo virou cinzento: o céu, o mar e o humor. Uma náusea cinzenta, urgente, impossível de conter, originou corrida desesperada para junto da amurada, alijando ao mar, em convulsões sincopadas, tudo o que o estômago tinha armazenado ao pequeno almoço. Ao levantar a cabeça para respirar, encontraram-se vários pares de olhos, todos até então, ocupados na tarefa de verem para onde caía o vomitado. O mar começara a baptizar os chamados "marujos de água doce". Pela cabeça dorida e desorientada vagueava Fernado Pessoa. "Ó mar salgado, quanto do teu sal.." Que puta de motivação para a poesia num momento em que as tripas pareciam querer seguir o vomitado em direcção ao mar.
Seguiu-se o vómito seco, em que cada movimento peristáltico dói como um cólica, e a boca amarga com o gosto da bílis. De repente, a impressão que céu e mar ficavam mais cinzentos, a vaga mais cavada, a cabeça mais vazia, reclamando com urgência um ponto de apoio. No meio de um mal-estar insuportável, uma busca desalentada para um abrigo contra os salpicos oceânicos, o vento e o enjoo. As duas calhas das bombas de profundidade surgiram do nada como o abrigo perfeito. Estendida a maca, alongado o corpo para debaixo das calhas, ponche por cima. Lá em baixo, tudo parecia perfeito, mesmo a hora do jantar que se afastava acompanhada de náuseas e vómito seco.
Já esta felicidade durava à algum tempo pouco, quando um abanão enérgico trouxe à consciência à pergunta inoportuna que alguém me fazia:
- Filho da escola, não vais jantar? Posso comer o teu rancho?
Suponho que respondi qualquer coisa e voltei-me para o outro lado, tentando retomar a modorra. Depois, tive a impressão que navio afocinhou, primeiro, depois levantou a proa e bateu com violência. Ficou-me a impressão que tinha mijado nas calças, tal foi o calafrio...
Levantei-me com o mar grosso e jinguei, como pude, pensando... se esta merda se afundar... os tubarões aparecerão?

Depois de algumas milhas náuticas, pensando como estava a ser desagradável o "baptismo de mar", este foi amansando e deu para olhá-lo. De cinzento tinha virado castanho térreo e pela proa da fragata vogavam espécimens vegetais de entre os quais pareciam abundar os jacintos-de-água.

De caminho perguntei a um cabo manobra que me pareceu rodados naquelas andanças porque é que as águas, agora, acastanhadas transportavam tanta vegetação e pareciam alucinadas correndo mar adentro. A resposta sobressaltou, em vez de aquietar:
Este é o Rio Zaire que tem uma corrente de vinte e cinco nós entra cem quilómetros pelo mar dentro, e mais te digo: se não tiverem cuidado há-de engolir muitos de vós.
Agradeci e fui pensando o que quereria dizer com tal discurso? Premonitório?

Meses depois, a duras custas, quando por altura de um abalrroamento, o rio Congo enguliu 105 camaradas, aquele discurso assaltou-me como a frigidez de um dizer de pitonisa.

A tarde caía cinzenta a pique no mar e cinzentos eram os pensamentos com que me recolhi, por debaixo das bombas de profundidade. Pensativo e angustiado, mal disposto e faminto, procurei anticipar o sono fugidio. Pela nesga de céu entre duas cargas de profundidade vi chegar a primeira estrela e pensei, vou dizer boa noite, antes que adormeça. Depois de um dia de cão azarado, que seja mesmo uma boa noite.

sábado, 12 de abril de 2008

O mar que vai dar ao rio

Dias em Luanda, poucos...apesar de tudo, duas saídas, breves, a pé - dinheiro ausente e pré no horizonte longínquo dos dossiers confidenciais. A caminhada a pé até Luanda, cerca de 3 a 4 quilómetros, estava garantida por escassez de machimbombos e nenhuma oferta de boleia. Quem queria ir alinhava num grupo de chiste e conversa fácil para encurtar o caminho. Logo na primeira saída, impressionou a multiplicidade das cores e luzes da Luanda, - que nunca jibóia -, e a superfície espelhada da Baía, que, ciosamente, guarda num seu fundo assoreado os fungos, vírus e bactérias que germinam na pústula citadina. Tudo bem guardado, sob uma superfície argentina, só denunciada pelo cheiro nauseabundo que exala em maré baixa. Cedo descobrimos a parte baixa da Luanda Velha dos Coqueiros, rainha Ginga, o Baleizão qual palácio das cassatas e dos queijos alentejanos aprisionados e afogados em frascos de boca. Avançando, cidade adentro, adejámos o Pólo Norte, a Biker, a Versailles, o Rialto e avistámos o prédio da L´étoile, posteriormente homologado como danceteria juvenil da cidade, postado num 13º andar sobra a Baía de todos os encantos, em praia-mar. Em deslocação para a Mutamba, fomos supreendidos pelo repicar do sino da Sé, qual relógio de aldeia da metrópole cristã, distante, mas presente, nas memórias diversas de cada um de nós. É tarde, hora de todos os regressos contra-vontade, mas o "book" - vais pó book filho da escola -, que recolhe todas as nossas condutas indisciplinadas é um inimigo a evitar. quando afrontado, come a nossa licença, e dejecta na nossa caderneta - cadastro - guardas, plantões, faxinas, detenção e até prisão, por isso é temido, mas, não é respeitado.
Posta em prática a retirada na direcção da Ilha de Nossa Senhora do Cabo, onde se situa a nossa base militar, corremos batendo com o pé direito no chão de quatro em quatro passos e, por provocação, um arroto, um peido, ou uma boca marcial, abandalham a postura militar.
Em passo de corrida, ultrapassámos a Estátua d
a Senhora do Cabo e, repentinamente, desacelerámos para identificar a direcção e local onde decorria um arrebita. As vozes e as percussões entrelaçavam-se numa polifonia de vozes e num turbilhão de corpos que evoluíam em contorsões rígidas e sincopadas. Ali, ao vivo e a cores, o primeiro merengue, quente, convulsivo, convidativo e, sobretudo, muito contagiante. Os corpos cor ébano, suados, luzidios, libertavam cheiros fortes, sobrepondo-se à salsugem e à tarimba cheia de magumba a secar. Os corpos contorcidos num ritmo desconhecido e cheio de feitiço davam ideias, mas que ficavam ideias confusas, desafiantes, vorazes e muito eróticas. Paradoxalmente, tudo acontecia num pureza gentia, junto à barra do manto de Nossa Senhora da Ilha do Cabo. Como num jogo de diz que disse, mais adiante, no Afonso Soeiro, as mesmas danças, idênticos corpos, ritmos, cheiros e desejos. Aqueles dezoito anos, estreados de fresco, não encaixavam tanta sensação e emoção, assim, um pouco à toa, talvez numa mensagem emergente do fundo do tracto olfactivo, o ar cheirava a amor feito de fresco. As pernas mais pesadas do que as pálpebras lançavam apelos irrecusáveis ao afundamento na cama ali a algumas centenas de metros.
O apelo de Morfeu tinha o peso das coisas que não se recusam, urgentes. A caminhada fora longa e feita, parcialmente, em passo de corrida; a descoberta dos corpos nús, contorcidos em danças de tesão e de amor, descoberta que acicatava os sentidos, os cheiros intensos e confusos sobrepunham-se numa confusão difícil de ordenar, mas antecipavam a possibilidade de sonhos muito desejados.
Transposto o portão da base, com a caserna e a cama já à vista, alguém avisa:
Amanhã é dia de afrontar o grande mar que desagua num rio, que tem a fama de um inferno vivo - O Rio Zaire ou Rio Congo, a gosto.
Feitas à justa as necessidades urgentes, um mergulho profunda na maca, uma queda vertiginosa no sono adiado... desculpem...quase esquecia o Boa Noite para vocês. Rapidamente, como num córrego, misturam-se águas do rio dos infernos e danças com ritmos infernais dominaram o sono do sohador. Lentamente, o lençol leve que cobria o corpo metamorfoseou-se numa tenda de campismo erguida num prumo, pequeno, mas a prumo.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Luanda, ainda, e sempre

A guerra colonial eclodira em 4 de Fevereiro de 1961. Neste momento, são 03:30 zulu, nas Instalações Navais da Ilha de Nossa Senhora do Cabo. Estamos a 2 de Março de 1963... fiz hoje os meus primeiros 18 anos. Supostamente, em guerra - penso eu. Nesta suposição, esta unidade da marinha devia encontrar-se em situação de alerta, qualquer coisa como DEFCON2. Inesperadamente, uma viatura ligeira, deslizando, au ralenti, trava a duas metros da sentinela que brada:
- Quem vem lá faça alto! Diga o Santo!
Uma voz respondeu em surdina:
- Sheeeeeee! Não grite, pode acordar a unidade. Eu sou filha do comandante da base, venho da "boite", deixe-me entrar.
- Não posso sem bradar pelo cabo da guarda!
- Não faça isso, deixe-me entrar.
Como era uma situação não prevista pelos discípulos militares portugueses de Von Clausewitz, deixei entrar a "boazona", que exalava um certo odor que me pareceu de "catinga". Seria?
Embora inexperiente pensei que no amor como na guerra, para alguns, vale tudo.
Estranha guerra esta. Se o comandante, caça a menina a invadir a casa familiar com os sapatos na mão e a cheirar a "catinga", vai sobrar para mim. Pensando bem, não tenho safa. Queria-me parecer que mais este incidente não era bom prenúncio para a minha carreira. Se isto continua assim, estou fodido, pensei.
A corrediça da porta de armas chiou e assaltou-me a ideia que o comandante da base viria para me interrogar sobre as condições da entrada clandestina da filha na Unidade. Apertaram-se-me os esfíncteres com o cagaço do que me iria acontecer. Tomei uma posição de sentinela alerta e esperei pela bronca antecipada. Escassos segundos de terror, suspendida a respiração, de repente estala uma ordem seca e marcial que diz:
- Venho render-te, podes ir deitar-te!

De arma ao alto, em passo de corrida, só parei na retrete. Ali, no escuro da noite, com o coração a bater, evacuei o medo sob forma sólida e líquida, e, se bem me lembro, gasosa, segura- mente. Mas que merda de embróglio!

De esfíncteres descomprimidos, fui assaltado por uma merecida vontade de dormir e sonhar. Caí na maca, mas sempre fui dizendo: foda-se! escapei de boa. Boa Noite!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Luanda, a magnífica, afectiva, promitente

O primeiro contacto com o céu do deserto sahariano, ainda que arrefecido pelos ineficazes ventiladores do avião, produziu um incidente inesperado: a caneta de tinta permanente, residente no bolso esquerdo do corpete, de um branco imaculado, ornado a azul no quadrilátero por onde emergia o pescoço, pressionada pela pressão e temperatura da cabine de voo, descarregou toda a tinta permanente, de cor azul na alvura do corpete. Foi assim que entrei em Luanda, húmido, sujo, com o corpete pintado de azul, ressentido. Ignorando a propensão das canetas de tinta permanente aerotransportadas para "ejaculação área, precoce e indesejada", arrostei sozinho, o desconforto da nódoa azul, grande como um céu, cravada no peito com desamor.
O jovem fuzileiro, que deixara Lisboa vinte horas antes, revoltado por ser forçado a embarcar sem escolha, exibia, publicamente, uma nódoa de tinta permanente que ofuscava a alvura do corpete da farda branca de verão.
Desembarcar em Luanda, às 20:30 horas, do dia 1 de Março de 1963, com um corpete imundo de suor sahariano, uma nódoa de pelikan azul, cinco coroas no bolso (dois escudos e cinquenta centavos), ignorante de tudo sobre Angola, em véspera de fazer 18 anos, não augurava nada de bom. Foi triste a forma como apareci na soleira da porta de S. Paulo da Assunção de Luanda.
Dia 2 de Março de 1963. De serviço de sentinela à porta de armas, uma Mission (laranjada), adquirida com as cinco coroas sobrantes, numa venda da Ilha, um jantar incaracterístico comido de sopetão para regressar ao posto de sentinela, ninguém a cantar os parabéns a você, agudizaram em mim a percepção de que me tinham escolhido por engano ou erro de avaliação para entrar em Angola sujo, teso, ignorante, com uma nódoa, em vez, de uma medalha ao peito, e que o meu futuro naquela terra de humidade, calor e mosquitos evoluiria de azul pelikan para cinzento de chumbo. Fiquei com a impressão de que aquele fuzileiro, quase imberbe, transpirado, sujo, de nódoa azul ao peito inspiraria, certamente, mais escárnio que temor. Rememorando estas ocorrências, alimento a esperança de que o meu quarto de sentinela passe mais depressa. São 03:00 h da manhã, Boa Noite, para todos vós.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Africa, renascer

A ordem foi peremptória: Vais! Embarcas dia 28 de Fevereiro de 1963, vê se não falhas o embarque.
Na noite do embarque, casualmente, encontram-se no Aeroporto, o 2º grumete FZE a a jovem varina. Ambos jovens e as perguntas costumeiras:
- Para onde vais?
- Para Angola.
- Qures ir? És voluntário para Angola?
- Não, fui mobilizado.
- Porque não desertas e vens viver comigo?

O convite foi reforçado com um beijo, quente, húmido - fazia muito frio. Depois de vários beijos, o aviso: "4º Destacamento de Fuzileiros Especiais, comparecer na sala de embarque". Eram 23:45 H, na pista o quadrimotor superconstelattion aguardava. Carregou, rolou, descolou, descreveu um arco de círculo sobre as instalações da Sacor. Abaixo do bojo da aeronave que roncava no esforço da subida, um mar de pontos de luz, imagem da cidade de Lisboa. Imagem nova, resplandecente, só muito mais tarde compreendi a mensagem... "Se agora vais de partida... que vida boa era a de Lisboa"
Sobre o deserto do Sahra, chegou o sonho, Boa Noite.