sábado, 12 de abril de 2008

O mar que vai dar ao rio

Dias em Luanda, poucos...apesar de tudo, duas saídas, breves, a pé - dinheiro ausente e pré no horizonte longínquo dos dossiers confidenciais. A caminhada a pé até Luanda, cerca de 3 a 4 quilómetros, estava garantida por escassez de machimbombos e nenhuma oferta de boleia. Quem queria ir alinhava num grupo de chiste e conversa fácil para encurtar o caminho. Logo na primeira saída, impressionou a multiplicidade das cores e luzes da Luanda, - que nunca jibóia -, e a superfície espelhada da Baía, que, ciosamente, guarda num seu fundo assoreado os fungos, vírus e bactérias que germinam na pústula citadina. Tudo bem guardado, sob uma superfície argentina, só denunciada pelo cheiro nauseabundo que exala em maré baixa. Cedo descobrimos a parte baixa da Luanda Velha dos Coqueiros, rainha Ginga, o Baleizão qual palácio das cassatas e dos queijos alentejanos aprisionados e afogados em frascos de boca. Avançando, cidade adentro, adejámos o Pólo Norte, a Biker, a Versailles, o Rialto e avistámos o prédio da L´étoile, posteriormente homologado como danceteria juvenil da cidade, postado num 13º andar sobra a Baía de todos os encantos, em praia-mar. Em deslocação para a Mutamba, fomos supreendidos pelo repicar do sino da Sé, qual relógio de aldeia da metrópole cristã, distante, mas presente, nas memórias diversas de cada um de nós. É tarde, hora de todos os regressos contra-vontade, mas o "book" - vais pó book filho da escola -, que recolhe todas as nossas condutas indisciplinadas é um inimigo a evitar. quando afrontado, come a nossa licença, e dejecta na nossa caderneta - cadastro - guardas, plantões, faxinas, detenção e até prisão, por isso é temido, mas, não é respeitado.
Posta em prática a retirada na direcção da Ilha de Nossa Senhora do Cabo, onde se situa a nossa base militar, corremos batendo com o pé direito no chão de quatro em quatro passos e, por provocação, um arroto, um peido, ou uma boca marcial, abandalham a postura militar.
Em passo de corrida, ultrapassámos a Estátua d
a Senhora do Cabo e, repentinamente, desacelerámos para identificar a direcção e local onde decorria um arrebita. As vozes e as percussões entrelaçavam-se numa polifonia de vozes e num turbilhão de corpos que evoluíam em contorsões rígidas e sincopadas. Ali, ao vivo e a cores, o primeiro merengue, quente, convulsivo, convidativo e, sobretudo, muito contagiante. Os corpos cor ébano, suados, luzidios, libertavam cheiros fortes, sobrepondo-se à salsugem e à tarimba cheia de magumba a secar. Os corpos contorcidos num ritmo desconhecido e cheio de feitiço davam ideias, mas que ficavam ideias confusas, desafiantes, vorazes e muito eróticas. Paradoxalmente, tudo acontecia num pureza gentia, junto à barra do manto de Nossa Senhora da Ilha do Cabo. Como num jogo de diz que disse, mais adiante, no Afonso Soeiro, as mesmas danças, idênticos corpos, ritmos, cheiros e desejos. Aqueles dezoito anos, estreados de fresco, não encaixavam tanta sensação e emoção, assim, um pouco à toa, talvez numa mensagem emergente do fundo do tracto olfactivo, o ar cheirava a amor feito de fresco. As pernas mais pesadas do que as pálpebras lançavam apelos irrecusáveis ao afundamento na cama ali a algumas centenas de metros.
O apelo de Morfeu tinha o peso das coisas que não se recusam, urgentes. A caminhada fora longa e feita, parcialmente, em passo de corrida; a descoberta dos corpos nús, contorcidos em danças de tesão e de amor, descoberta que acicatava os sentidos, os cheiros intensos e confusos sobrepunham-se numa confusão difícil de ordenar, mas antecipavam a possibilidade de sonhos muito desejados.
Transposto o portão da base, com a caserna e a cama já à vista, alguém avisa:
Amanhã é dia de afrontar o grande mar que desagua num rio, que tem a fama de um inferno vivo - O Rio Zaire ou Rio Congo, a gosto.
Feitas à justa as necessidades urgentes, um mergulho profunda na maca, uma queda vertiginosa no sono adiado... desculpem...quase esquecia o Boa Noite para vocês. Rapidamente, como num córrego, misturam-se águas do rio dos infernos e danças com ritmos infernais dominaram o sono do sohador. Lentamente, o lençol leve que cobria o corpo metamorfoseou-se numa tenda de campismo erguida num prumo, pequeno, mas a prumo.

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