08:00h/Zulu. Fazendo lembrar formigas num carreiro, setenta e oito homens carregando maca e saco da ordem, sobem pela prancha, como se zarpar fosse tarefa urgente. O apito de faina manda começar a manobra de largar cabos e aproar ao mar largo. Encontrado o lugar para poisar maca e saco da ordem, deslocamento acelerado para a amura de bombordo para encher os olhos e o cérebro com as imagens possíveis de Luanda a afastar-se à popa.
Para muitos de nós é a primeira viagem em mar largo... de profundis, tal foi o impacto que se seguiu. Pela frente, mar de pequena vaga, cavada. O NRP 496, balançava num avanço de montanha russa e a temperatura começava a cair. Salpicos de água gelada do oceano atlântico, convidavam à procura de abrigo. Na altura, o refúgio ideal parecia ser a casa da máquina. O conforto quente e modorrento que se libertava da máquina a trabalhar a meia-avante, foi como que um bálsamo que aqueceu, por momentos. Nuvens cinzentas foram surgindo à proa e pela amura de estibordo, má viagem. Poucas milhas adiante, tudo virou cinzento: o céu, o mar e o humor. Uma náusea cinzenta, urgente, impossível de conter, originou corrida desesperada para junto da amurada, alijando ao mar, em convulsões sincopadas, tudo o que o estômago tinha armazenado ao pequeno almoço. Ao levantar a cabeça para respirar, encontraram-se vários pares de olhos, todos até então, ocupados na tarefa de verem para onde caía o vomitado. O mar começara a baptizar os chamados "marujos de água doce". Pela cabeça dorida e desorientada vagueava Fernado Pessoa. "Ó mar salgado, quanto do teu sal.." Que puta de motivação para a poesia num momento em que as tripas pareciam querer seguir o vomitado em direcção ao mar.
Seguiu-se o vómito seco, em que cada movimento peristáltico dói como um cólica, e a boca amarga com o gosto da bílis. De repente, a impressão que céu e mar ficavam mais cinzentos, a vaga mais cavada, a cabeça mais vazia, reclamando com urgência um ponto de apoio. No meio de um mal-estar insuportável, uma busca desalentada para um abrigo contra os salpicos oceânicos, o vento e o enjoo. As duas calhas das bombas de profundidade surgiram do nada como o abrigo perfeito. Estendida a maca, alongado o corpo para debaixo das calhas, ponche por cima. Lá em baixo, tudo parecia perfeito, mesmo a hora do jantar que se afastava acompanhada de náuseas e vómito seco.
Já esta felicidade durava à algum tempo pouco, quando um abanão enérgico trouxe à consciência à pergunta inoportuna que alguém me fazia:
- Filho da escola, não vais jantar? Posso comer o teu rancho?
Suponho que respondi qualquer coisa e voltei-me para o outro lado, tentando retomar a modorra. Depois, tive a impressão que navio afocinhou, primeiro, depois levantou a proa e bateu com violência. Ficou-me a impressão que tinha mijado nas calças, tal foi o calafrio...
Levantei-me com o mar grosso e jinguei, como pude, pensando... se esta merda se afundar... os tubarões aparecerão?
Depois de algumas milhas náuticas, pensando como estava a ser desagradável o "baptismo de mar", este foi amansando e deu para olhá-lo. De cinzento tinha virado castanho térreo e pela proa da fragata vogavam espécimens vegetais de entre os quais pareciam abundar os jacintos-de-água.
De caminho perguntei a um cabo manobra que me pareceu rodados naquelas andanças porque é que as águas, agora, acastanhadas transportavam tanta vegetação e pareciam alucinadas correndo mar adentro. A resposta sobressaltou, em vez de aquietar:
Este é o Rio Zaire que tem uma corrente de vinte e cinco nós entra cem quilómetros pelo mar dentro, e mais te digo: se não tiverem cuidado há-de engolir muitos de vós.
Agradeci e fui pensando o que quereria dizer com tal discurso? Premonitório?
Meses depois, a duras custas, quando por altura de um abalrroamento, o rio Congo enguliu 105 camaradas, aquele discurso assaltou-me como a frigidez de um dizer de pitonisa.
A tarde caía cinzenta a pique no mar e cinzentos eram os pensamentos com que me recolhi, por debaixo das bombas de profundidade. Pensativo e angustiado, mal disposto e faminto, procurei anticipar o sono fugidio. Pela nesga de céu entre duas cargas de profundidade vi chegar a primeira estrela e pensei, vou dizer boa noite, antes que adormeça. Depois de um dia de cão azarado, que seja mesmo uma boa noite.
Para muitos de nós é a primeira viagem em mar largo... de profundis, tal foi o impacto que se seguiu. Pela frente, mar de pequena vaga, cavada. O NRP 496, balançava num avanço de montanha russa e a temperatura começava a cair. Salpicos de água gelada do oceano atlântico, convidavam à procura de abrigo. Na altura, o refúgio ideal parecia ser a casa da máquina. O conforto quente e modorrento que se libertava da máquina a trabalhar a meia-avante, foi como que um bálsamo que aqueceu, por momentos. Nuvens cinzentas foram surgindo à proa e pela amura de estibordo, má viagem. Poucas milhas adiante, tudo virou cinzento: o céu, o mar e o humor. Uma náusea cinzenta, urgente, impossível de conter, originou corrida desesperada para junto da amurada, alijando ao mar, em convulsões sincopadas, tudo o que o estômago tinha armazenado ao pequeno almoço. Ao levantar a cabeça para respirar, encontraram-se vários pares de olhos, todos até então, ocupados na tarefa de verem para onde caía o vomitado. O mar começara a baptizar os chamados "marujos de água doce". Pela cabeça dorida e desorientada vagueava Fernado Pessoa. "Ó mar salgado, quanto do teu sal.." Que puta de motivação para a poesia num momento em que as tripas pareciam querer seguir o vomitado em direcção ao mar.
Seguiu-se o vómito seco, em que cada movimento peristáltico dói como um cólica, e a boca amarga com o gosto da bílis. De repente, a impressão que céu e mar ficavam mais cinzentos, a vaga mais cavada, a cabeça mais vazia, reclamando com urgência um ponto de apoio. No meio de um mal-estar insuportável, uma busca desalentada para um abrigo contra os salpicos oceânicos, o vento e o enjoo. As duas calhas das bombas de profundidade surgiram do nada como o abrigo perfeito. Estendida a maca, alongado o corpo para debaixo das calhas, ponche por cima. Lá em baixo, tudo parecia perfeito, mesmo a hora do jantar que se afastava acompanhada de náuseas e vómito seco.
Já esta felicidade durava à algum tempo pouco, quando um abanão enérgico trouxe à consciência à pergunta inoportuna que alguém me fazia:
- Filho da escola, não vais jantar? Posso comer o teu rancho?
Suponho que respondi qualquer coisa e voltei-me para o outro lado, tentando retomar a modorra. Depois, tive a impressão que navio afocinhou, primeiro, depois levantou a proa e bateu com violência. Ficou-me a impressão que tinha mijado nas calças, tal foi o calafrio...
Levantei-me com o mar grosso e jinguei, como pude, pensando... se esta merda se afundar... os tubarões aparecerão?
Depois de algumas milhas náuticas, pensando como estava a ser desagradável o "baptismo de mar", este foi amansando e deu para olhá-lo. De cinzento tinha virado castanho térreo e pela proa da fragata vogavam espécimens vegetais de entre os quais pareciam abundar os jacintos-de-água.
De caminho perguntei a um cabo manobra que me pareceu rodados naquelas andanças porque é que as águas, agora, acastanhadas transportavam tanta vegetação e pareciam alucinadas correndo mar adentro. A resposta sobressaltou, em vez de aquietar:
Este é o Rio Zaire que tem uma corrente de vinte e cinco nós entra cem quilómetros pelo mar dentro, e mais te digo: se não tiverem cuidado há-de engolir muitos de vós.
Agradeci e fui pensando o que quereria dizer com tal discurso? Premonitório?
Meses depois, a duras custas, quando por altura de um abalrroamento, o rio Congo enguliu 105 camaradas, aquele discurso assaltou-me como a frigidez de um dizer de pitonisa.
A tarde caía cinzenta a pique no mar e cinzentos eram os pensamentos com que me recolhi, por debaixo das bombas de profundidade. Pensativo e angustiado, mal disposto e faminto, procurei anticipar o sono fugidio. Pela nesga de céu entre duas cargas de profundidade vi chegar a primeira estrela e pensei, vou dizer boa noite, antes que adormeça. Depois de um dia de cão azarado, que seja mesmo uma boa noite.
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