O primeiro contacto com o céu do deserto sahariano, ainda que arrefecido pelos ineficazes ventiladores do avião, produziu um incidente inesperado: a caneta de tinta permanente, residente no bolso esquerdo do corpete, de um branco imaculado, ornado a azul no quadrilátero por onde emergia o pescoço, pressionada pela pressão e temperatura da cabine de voo, descarregou toda a tinta permanente, de cor azul na alvura do corpete. Foi assim que entrei em Luanda, húmido, sujo, com o corpete pintado de azul, ressentido. Ignorando a propensão das canetas de tinta permanente aerotransportadas para "ejaculação área, precoce e indesejada", arrostei sozinho, o desconforto da nódoa azul, grande como um céu, cravada no peito com desamor.
O jovem fuzileiro, que deixara Lisboa vinte horas antes, revoltado por ser forçado a embarcar sem escolha, exibia, publicamente, uma nódoa de tinta permanente que ofuscava a alvura do corpete da farda branca de verão.
Desembarcar em Luanda, às 20:30 horas, do dia 1 de Março de 1963, com um corpete imundo de suor sahariano, uma nódoa de pelikan azul, cinco coroas no bolso (dois escudos e cinquenta centavos), ignorante de tudo sobre Angola, em véspera de fazer 18 anos, não augurava nada de bom. Foi triste a forma como apareci na soleira da porta de S. Paulo da Assunção de Luanda.
Dia 2 de Março de 1963. De serviço de sentinela à porta de armas, uma Mission (laranjada), adquirida com as cinco coroas sobrantes, numa venda da Ilha, um jantar incaracterístico comido de sopetão para regressar ao posto de sentinela, ninguém a cantar os parabéns a você, agudizaram em mim a percepção de que me tinham escolhido por engano ou erro de avaliação para entrar em Angola sujo, teso, ignorante, com uma nódoa, em vez, de uma medalha ao peito, e que o meu futuro naquela terra de humidade, calor e mosquitos evoluiria de azul pelikan para cinzento de chumbo. Fiquei com a impressão de que aquele fuzileiro, quase imberbe, transpirado, sujo, de nódoa azul ao peito inspiraria, certamente, mais escárnio que temor. Rememorando estas ocorrências, alimento a esperança de que o meu quarto de sentinela passe mais depressa. São 03:00 h da manhã, Boa Noite, para todos vós.
O jovem fuzileiro, que deixara Lisboa vinte horas antes, revoltado por ser forçado a embarcar sem escolha, exibia, publicamente, uma nódoa de tinta permanente que ofuscava a alvura do corpete da farda branca de verão.
Desembarcar em Luanda, às 20:30 horas, do dia 1 de Março de 1963, com um corpete imundo de suor sahariano, uma nódoa de pelikan azul, cinco coroas no bolso (dois escudos e cinquenta centavos), ignorante de tudo sobre Angola, em véspera de fazer 18 anos, não augurava nada de bom. Foi triste a forma como apareci na soleira da porta de S. Paulo da Assunção de Luanda.
Dia 2 de Março de 1963. De serviço de sentinela à porta de armas, uma Mission (laranjada), adquirida com as cinco coroas sobrantes, numa venda da Ilha, um jantar incaracterístico comido de sopetão para regressar ao posto de sentinela, ninguém a cantar os parabéns a você, agudizaram em mim a percepção de que me tinham escolhido por engano ou erro de avaliação para entrar em Angola sujo, teso, ignorante, com uma nódoa, em vez, de uma medalha ao peito, e que o meu futuro naquela terra de humidade, calor e mosquitos evoluiria de azul pelikan para cinzento de chumbo. Fiquei com a impressão de que aquele fuzileiro, quase imberbe, transpirado, sujo, de nódoa azul ao peito inspiraria, certamente, mais escárnio que temor. Rememorando estas ocorrências, alimento a esperança de que o meu quarto de sentinela passe mais depressa. São 03:00 h da manhã, Boa Noite, para todos vós.
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