quinta-feira, 10 de abril de 2008

Luanda, ainda, e sempre

A guerra colonial eclodira em 4 de Fevereiro de 1961. Neste momento, são 03:30 zulu, nas Instalações Navais da Ilha de Nossa Senhora do Cabo. Estamos a 2 de Março de 1963... fiz hoje os meus primeiros 18 anos. Supostamente, em guerra - penso eu. Nesta suposição, esta unidade da marinha devia encontrar-se em situação de alerta, qualquer coisa como DEFCON2. Inesperadamente, uma viatura ligeira, deslizando, au ralenti, trava a duas metros da sentinela que brada:
- Quem vem lá faça alto! Diga o Santo!
Uma voz respondeu em surdina:
- Sheeeeeee! Não grite, pode acordar a unidade. Eu sou filha do comandante da base, venho da "boite", deixe-me entrar.
- Não posso sem bradar pelo cabo da guarda!
- Não faça isso, deixe-me entrar.
Como era uma situação não prevista pelos discípulos militares portugueses de Von Clausewitz, deixei entrar a "boazona", que exalava um certo odor que me pareceu de "catinga". Seria?
Embora inexperiente pensei que no amor como na guerra, para alguns, vale tudo.
Estranha guerra esta. Se o comandante, caça a menina a invadir a casa familiar com os sapatos na mão e a cheirar a "catinga", vai sobrar para mim. Pensando bem, não tenho safa. Queria-me parecer que mais este incidente não era bom prenúncio para a minha carreira. Se isto continua assim, estou fodido, pensei.
A corrediça da porta de armas chiou e assaltou-me a ideia que o comandante da base viria para me interrogar sobre as condições da entrada clandestina da filha na Unidade. Apertaram-se-me os esfíncteres com o cagaço do que me iria acontecer. Tomei uma posição de sentinela alerta e esperei pela bronca antecipada. Escassos segundos de terror, suspendida a respiração, de repente estala uma ordem seca e marcial que diz:
- Venho render-te, podes ir deitar-te!

De arma ao alto, em passo de corrida, só parei na retrete. Ali, no escuro da noite, com o coração a bater, evacuei o medo sob forma sólida e líquida, e, se bem me lembro, gasosa, segura- mente. Mas que merda de embróglio!

De esfíncteres descomprimidos, fui assaltado por uma merecida vontade de dormir e sonhar. Caí na maca, mas sempre fui dizendo: foda-se! escapei de boa. Boa Noite!

Um comentário:

tacci disse...

Meu caro Vítor, fiquei cheio de curiosidade: como era a filha do comandante? Que carro usava? Não me venhas dizer que os pobres magalas que faziam sentinela não lhe olhavam para as pernas, não sonhavam com ela! A menos que fosse demasiado feia e mesmo assim...
Um abraço.
E olha, se me dás licença, vou por um link para o Portugal, Caramba!
Posso?