terça-feira, 15 de abril de 2008

Na esteira de Diogo Cão...por esse rio acima

Logo que o sol da manhã desvaneceu a toalha de neblina que toldava a paisagem ao redor do NRP Vasco da Gama, este pareceu emergir dum banco de nevoeiro onde estivera encalhado. O deslizar veloz e ruido do ferro de fundear através dos ovens anunciou a faina de fundear. Depois do ferro engulido pelas águas ter fundeado o navio tocou o apito de "volta à faina". Chegámos à boca da foz do rio Zaire. Em volta todo o rio visível era de um tom de lama acastanhada, transportando detritos de aluvião: arbustos, capim, jacintos-de-água, pequenas ilhotas de terra com gramíneas deslizavam, velozmente, na corrente do rio como se quisessem fugir do território banhado por este rio sujo, sinuoso, ameaçador de vidas e bens, devorador de homem.
As primeiras imagens colhidas deste rio, nunca antes visto, nem comparável a nada já visto determinaram intuitivamente um mapa misto de apreensões e sobressaltos, de potenciais ameaças ocultas, de perigos e emboscadas letais em cada volta e cada braço de rio. A chegada da lancha de desembarque pequena (LDP) chegou para nos conduzir a terra. Rapidamente conduzidos ao aquartelamento que nos esperava, a duas centenas de metros de distância, constituído por pequenas casernas com telhados de lusalite no CADFE, junto ao litoral norte, de Santo António do Zaire, actualmente, Soyo na bacia petrolífera do mesmo nome.
Depois da distribuição das casernas, instalação do pessoal, colocar a maca e guardar os pertences soou o clarim covocando para o almoço naquele toque inconfundível traduzido pela expressão "quem não vem não come... quem não vem não come...quem não vem não come", imperdível!
Após o almoço, o contacto com camaradas de armas residentes. Constituíamos o 4º Destacamento de Fuzileiros Especiais. Este era constituído, maioritariamente, por homens que se conheciam desde Março de 1962, data do alistamento. Duma companhia de 150 homens, metade fizera a recruta, o ITE e a especialidade (Curso de Fuzileiro Especial), de seguida, e após receber a boina, foi constituído o destacamento enviado para Angola, de avião, no qual fomos integrados.
Seguia no Destacamento na situação de reserva e iria avançar para onde fosse preciso.
Depois da "volta ao serviço" no fim da tarde, deslocámo-nos em grupo para a Vila de Santo António do Zaire. Esta Vila era constituída por três ruas perpendiculares que atravessavam a Vila, longitudinalmente. A do meio, a principal, era a maior, pois que, atravessava toda a vila desde a orla ribeirinha ao capo de aviação, limite da vila.
Três ruas perpendiculares, pequenas, compunham a rede urbana da vila, com três bares: o do cinema, o Soto e o Manel do Yangala. Ex-libris da vila: D. Miguel Roto Corno Pacaça Guarda Numacarabenda (o nome seguinte era indicado com o indicador direito baixando sobre a palma da mão esquerda e pronunciando) O Único, o Velho Simões, alcunhado pelos kissolongos como "Mukangala-o Solitário), por lhes afigurar o velho elefante solitário, o pai da Xica, com o seu Land Rover, verde, descapotado, a gasolina, o Soto por razões infames indeclináveis, o pide guimarães, o josé maria do bar, o Caseiro e poucos mais. Naquele noite a vila foi devassada na sua quintessência - nada.
A noite foi limitada por uma corrida aos bares, apresentações, apertos de mão, abraços, uns copos e uma inofensíva bebedeira de boas-vindas. Dava vontade de dizer como os "snobs ingleses" What a lovely war!
Ao primeiro encontro compareceram todos os mosquitos disponíveis e em serviço. Lambuzaram-se com o nosso sangue, engordaram e cagaram-nos nas veias. Para nós ficou apenas disponível e embrulhado em vapor etílico, o desejo de uma boa noite.


Um comentário:

tacci disse...

Estou a ler-te verdadeiramente interessado.
Diz-me, nem que seja em nota de rodapé:
O que é o CADFE?
Não podes ser um nadinha mais explícito àcerca da formação do 4º destacamento?
Pai da Xica: vais dizer-nos quem era a Xica?
Um abraço.