Onde deixei a Lugolina? Na esteira. Era na esteira, sempre esticada, na cubata dela, que a rotina militar, era substituída por uma faina bem mais agradável. Lugolina era jovem, talvez, mais velha dois ou três anos do que os meus recentes dezoito. Fazíamos sexo com desejo, sem regras nem perguntas, a gosto. A satisfação completava-se por algumas perguntas que se faziam no remanso post-coito.
- Zoão a tua mãe te gosta? Quem te mandou longe nesta guerra, fora da tua mãe? perguntou.
- Acho que a minha mãe gosta de mim, tal como eu gosto dela, respondi enrolando o resto da resposta, tal como fora recomendado na preparação psico-social: não facilitar informações ao inimigo.
- Porque perguntas pela minha mãe? Enrolei eu...
- Tu é doce Zoão, porque a tua mãe é boa. Me dá filho doce comigo, concluiu.
Não sei se faço justiça à Lugolina, que deveria ser enganada, metodicamente, para não passar ao inimigo informações colhidas entre suspiros e carícias. Como eu, acho que era uma jovem, pouco experiente da vida, negligenciada por um marido que mimava a primeira mulher, aquela com quem casara na missão católica. Doce como uma manga da Quissanga, suave como a brisa quente que demanda os coqueiros e os arrasta para a dança, à Lugolina coubera em sorte ter filhos, os que o marido quisesse. Por recato, mas também, por necessidade nunca, tacitamente, falámos no marido, que nem sequer atrapalhava e, talvez por isso, ficou-me a ideia de que era querido poraquela jovem mulher, pura e inocente que com o corpo pagava a liberdade do sobrinho perguiçar.
Não foram tantas quanto eu gostava as noites des-passadas, sempre a gosto e por concordância mútua. Só muitos, muitos anos depois, uma dúvida extemporânea, passada e repassada, veio habitar a incerteza de que um filho ou filha poderia ter sido deixado sem pai... estranha impressão de que tal possa ter acontecido, é, em mim, visita recorrente.
Pela Lugolina soube que o marido tencionava informar as autoridades militares das fugas frequentes da caserna de um tal segundo grumete fuzileiro especial, pela calada da noite em prevenção, não honrando as regras da guerra nem da sua casa, que vinha à zanzala fazer corpo-a-corpo com a inimiga...
A situação criada configurava uma boa oportunidade para o marido ofendido que queria retomar a posse absoluta da mulher e antecipava uma decisão, por parte das autoridades militares, que lhe seria favorável. Tinha na mão um trunfo e jogou forte.
Aceitaria uma refeição colectiva, e eu devia pagar a maior parte do custo da refeição de lavagem da honra. A refeição foi triste, a Lugolina fora mandada visitar a mãe ao kimbo de origem.
A esteira em que os nossos corpos se deram durante tantas noites foi transformada, punitivamente, na toalha de mesa em que repousavam a par o funje, o barbudo seco e a sardinha de lata com molho de tomate mais as bolachas e as cucas.
À "última ceia" presidiram o constrangimento e a vontade de provocar. O barbudo-seco ao sol, depois de cozinhado exalava um cheiro novo e estranho que irritava o nariz, maltratava o palato e agredia o estômago.
Num silêncio de cortar à catana, o barbudo foi levado à boca. A resposta imediata, reflexa, induziu o vómito que arrastou o barbudo-cadáver e a saliva que o amortalhava, sob o olhar indignado do anfitrião.
Por breves instantes, aqueles em que tudo pode acontecer, os corpos crisparam-se e a provocação teve o efeito de uma bofetada dada para deixar marca, o marido em fase de desagravamento, elevou a voz e com premeditada autoridade falou:
É comida de cão, não é patrão?
A corrida rápida em direcção a um local afastado para poder vomitar foi a resposta possível. Depois, regressado à refeição estendida na esteira, num ambiente transfigurado, o convivio morreu, ali mesmo. As palavras que se proferiram não sobreviveram à memória. O marido estava desagravado, a convivialidade desfeita. O relógio de pulso e o toque de clarim no quartel, ali perto, forneceram os últimos argumentos à retirada estratégica. Perdido o lavadeiro e, irremediavelmente, perdida a Lugolina, e já como regresso empreendido, chegou-me aos ouvidos a frase derradeira:
- Esse patrão branco que não gosta de comida de cão, como é que come as nossas mulher? Tchié, subilou cuspindo de dentes serrados.
- Chegado à caserna, a vontade de jantar em fuga, nos ouvidos ficou a martelar a fala longínqua do marido reinvestido em proprietário de mulheres várias. Pensando no ocorrido, camuflei-me no recesso da maca sonolento. Rapidamente o sono foi chegando, transportando sonhos lindos em que a Lugolina mudava do marido para mim.
No sonho, despedia-se do marido com estas palavras:
- Marido, não me espera só, yá! Vou fazer tirar informações no branco, fica bem, boa noite.
- Zoão a tua mãe te gosta? Quem te mandou longe nesta guerra, fora da tua mãe? perguntou.
- Acho que a minha mãe gosta de mim, tal como eu gosto dela, respondi enrolando o resto da resposta, tal como fora recomendado na preparação psico-social: não facilitar informações ao inimigo.
- Porque perguntas pela minha mãe? Enrolei eu...
- Tu é doce Zoão, porque a tua mãe é boa. Me dá filho doce comigo, concluiu.
Não sei se faço justiça à Lugolina, que deveria ser enganada, metodicamente, para não passar ao inimigo informações colhidas entre suspiros e carícias. Como eu, acho que era uma jovem, pouco experiente da vida, negligenciada por um marido que mimava a primeira mulher, aquela com quem casara na missão católica. Doce como uma manga da Quissanga, suave como a brisa quente que demanda os coqueiros e os arrasta para a dança, à Lugolina coubera em sorte ter filhos, os que o marido quisesse. Por recato, mas também, por necessidade nunca, tacitamente, falámos no marido, que nem sequer atrapalhava e, talvez por isso, ficou-me a ideia de que era querido poraquela jovem mulher, pura e inocente que com o corpo pagava a liberdade do sobrinho perguiçar.
Não foram tantas quanto eu gostava as noites des-passadas, sempre a gosto e por concordância mútua. Só muitos, muitos anos depois, uma dúvida extemporânea, passada e repassada, veio habitar a incerteza de que um filho ou filha poderia ter sido deixado sem pai... estranha impressão de que tal possa ter acontecido, é, em mim, visita recorrente.
Pela Lugolina soube que o marido tencionava informar as autoridades militares das fugas frequentes da caserna de um tal segundo grumete fuzileiro especial, pela calada da noite em prevenção, não honrando as regras da guerra nem da sua casa, que vinha à zanzala fazer corpo-a-corpo com a inimiga...
A situação criada configurava uma boa oportunidade para o marido ofendido que queria retomar a posse absoluta da mulher e antecipava uma decisão, por parte das autoridades militares, que lhe seria favorável. Tinha na mão um trunfo e jogou forte.
Aceitaria uma refeição colectiva, e eu devia pagar a maior parte do custo da refeição de lavagem da honra. A refeição foi triste, a Lugolina fora mandada visitar a mãe ao kimbo de origem.
A esteira em que os nossos corpos se deram durante tantas noites foi transformada, punitivamente, na toalha de mesa em que repousavam a par o funje, o barbudo seco e a sardinha de lata com molho de tomate mais as bolachas e as cucas.
À "última ceia" presidiram o constrangimento e a vontade de provocar. O barbudo-seco ao sol, depois de cozinhado exalava um cheiro novo e estranho que irritava o nariz, maltratava o palato e agredia o estômago.
Num silêncio de cortar à catana, o barbudo foi levado à boca. A resposta imediata, reflexa, induziu o vómito que arrastou o barbudo-cadáver e a saliva que o amortalhava, sob o olhar indignado do anfitrião.
Por breves instantes, aqueles em que tudo pode acontecer, os corpos crisparam-se e a provocação teve o efeito de uma bofetada dada para deixar marca, o marido em fase de desagravamento, elevou a voz e com premeditada autoridade falou:
É comida de cão, não é patrão?
A corrida rápida em direcção a um local afastado para poder vomitar foi a resposta possível. Depois, regressado à refeição estendida na esteira, num ambiente transfigurado, o convivio morreu, ali mesmo. As palavras que se proferiram não sobreviveram à memória. O marido estava desagravado, a convivialidade desfeita. O relógio de pulso e o toque de clarim no quartel, ali perto, forneceram os últimos argumentos à retirada estratégica. Perdido o lavadeiro e, irremediavelmente, perdida a Lugolina, e já como regresso empreendido, chegou-me aos ouvidos a frase derradeira:
- Esse patrão branco que não gosta de comida de cão, como é que come as nossas mulher? Tchié, subilou cuspindo de dentes serrados.
- Chegado à caserna, a vontade de jantar em fuga, nos ouvidos ficou a martelar a fala longínqua do marido reinvestido em proprietário de mulheres várias. Pensando no ocorrido, camuflei-me no recesso da maca sonolento. Rapidamente o sono foi chegando, transportando sonhos lindos em que a Lugolina mudava do marido para mim.
No sonho, despedia-se do marido com estas palavras:
- Marido, não me espera só, yá! Vou fazer tirar informações no branco, fica bem, boa noite.
Um comentário:
Muito interessante este desagravo.
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